The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Entusiasmo e mais nada

Tenho reparado que no design como em outras áreas há um culto da iniciativa entusiasmada, do voluntarismo, de saltar para as coisas sem pensar demasiado nelas, do descaramento. Talvez o melhor exemplo disso, a mascote da coisa, seja aquele rapaz, uma espécie de Marco Horácio dobrado pelo Fernando Rocha, que foi ao Prós e Contras falar de “bater punho com sagacidade”, da quantidade de designers sem emprego e do que aconteceria se os empresários tirassem vinte minutos por semana para falar olhos nos olhos com os jovens – no caso do design, ainda há quem chame a isso “aulas”.

O entusiasmo do rapaz deve ter sido contagiante: a sua intervenção passou a ser citada a torto e a direito como um exemplo de empreendedorismo, iniciativa, etc. Mas de iniciativa a fazer o quê, exactamente? Qual é a qualidade do produto que promovia? Qual era sequer o produto, o serviço ou o que quer que seja? Pelos vistos, nem interessa muito: o que conta é a convicção com que se promove a “coisa”.

Assume-se que vale a pena olhar para o trabalho de alguém que se promove entusiasticamente mas o que interessa no final é a qualidade – estética, funcional, ética, ecológica, etc. – do trabalho. Promover as coisas apenas por que demonstram iniciativa é o género de atitude que domina a política actual, feita de voluntarismo, desprezo paternalista pela discussão pública e pelo próprio público. Políticas cujo único objectivo – e resultado – é demonstrarem iniciativa convicta à Troika ou aos mercados.

O entusiasmo e a iniciativa não são bons por si mesmos, não são conteúdos ou produtos – destruir a Amazónia ou caçar baleias, por exemplo, são tarefas que exigem iniciativa e descaramento, mas será que compensam?

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Política, Prontuário da Crise

33 Responses

  1. “Bater punho com sagacidade” pode ser entendido de várias e maliciosas maneiras. Mas, se pensarmos bem, talvez esteja aí a toda a extensão deste entusiasmo. No rapaz e na política. A convicção por si só compensa, infelizmente.

  2. João Sobral diz:

    esse rapaz dá-me dores de cabeça.

  3. Rui Franco diz:

    Este tipo é uma espécie de pastor da IURD aplicado “aos negócios”, nada mais. A tecnica está toda lá, só muda o sotaque e a divindade. Em ambos os casos sobra-nos… nada.

    Se for ver a página de internet dele, aquilo é uma salganhada de Português e Inglês própria de quem não sabe muito bem onde se mexe mas sabe que tem de parecer dinâmico.

    Se fixar as coisas que ele hoje diz e as comparar com as que ele vai dizer daqui a um ano, garanto-lhe que vai defender ideias completamente diferentes só porque… sim.

    E o pior é que este tipo (que deve ir buscar ideias a outros como ele mas mais “americanos”) acaba por convencer os papalvos de que “hoje se faz assim” e “hoje já não se faz assim”.

    Um balão de ar, simplesmente.

  4. joao volz diz:

    Gostando-se ou não do sotaque, do estilo, concordando-se ou não com a economia de mercado e o sistema capitalista (parece ser esse um dos indeléveis problemas deste nosso “americano”), a verdade é que as 80 pessoas que estão agora a trabalhar porque arranjaram emprego através da primeira edição do So You Think You Can Pitch, um dos projectos da “convicção” e “iniciativa” do Miguel, dificilmente concordariam com o rol de mesquinhez altiva que este texto exala.

    Eu não ia à bola com o gajo, mas a verdade é que ele fala e o trabalho que tem desenvolvido fala por ele.

    • Se achar que devia haver soluções mais dignas para a procura de emprego do que imitar o modelo de um reality show é mesquinhez altiva, então, sim, sou um mesquinho altivo. Sem vergonha nenhuma de o ser.

      E se falo do sotaque do personagem é porque acredito que se não fosse por isso, ninguém lhe teria dado qualquer importância. Na minha vida, já vi demasiado empreendedorismo pimba para achar que a coisa tem alguma piada.

      Já agora, porque acho o modelo do Reality Show mau? Porque já é, em si mesmo, uma espécie de estágio profissional, uma espécie de glorificação espectacular do modelo. Basta ver coisas como The Aprentice com o Donald Trump, a versão para designers com o Phillipe Starck ou a versão americana para artistas da qual não me recordo do nome – tudo estágios de emprego prolongados e humilhantes. Calculo que qualquer uma destas estruturas arranje só por si bem mais do que 80 empregos, entre concorrentes e equipa. Deve-se gostar disto tudo apenas porque gera emprego? Então se calhar também se devia defender a prostituição, por exemplo, simplesmente porque gera emprego.

      (E – por incrível que pareça – ainda há profissionais, no design gráfico e não só, que vão praticando a sua profissão sem o recurso à lata, ao descaramento, etc. Conhecendo o meio, não acredito que essas características estejam sequer em falta. Profissionalismo e timidez não são mutuamente exclusivos.)

  5. joao volz diz:

    Então, se eu percebi corretamente (e não estou seguro disso), a génese do seu argumento centra-se na ideia de que um encontro informal de algumas dezenas de empresários com algumas centenas de jovens que origina oportunidade de emprego para 80 deles, é no fundo uma vil forma de prostituição e degradação que contamina os restantes profissionais da mesma “classe”, e que isto é tão mais verdade porque quem promoveu o encontro foi um empreendedor pimba sem “classe” nenhuma.

    Ah, se é isso, então está muito bem.

    • Népias: a génese do meu argumento é que, pelos vistos, para se ser empreendedor em Portugal ajuda ser-se uma espécie de Marco Horácio que fala à Fernando Rocha, que produz iniciativas chamadas “Achas que sabes ser empresário no gelo?”

  6. joao volz diz:

    Muito mais preocupante do que o Miguel & Cpa andarem a fazer o trabalho do IEFP deveria ser, por exemplo, o fato do concurso lançado pela Caixa Geral de Depósitos para a criação da imagem gráfica do cartão de estudante universitário ser exclusivo para alunos da ESAD…

  7. Rena Tó diz:

    Que patada na boca que o Moura levou!

    Pareceu-me que o (não sei se o é) “Jovem designer” argumentou bem contra a clara preocupação e medo de perder trabalho por parte do “velho designer” preso ainda nos velhos moldes de laborar….

    • Nem é o facto de me chamarem mesquinho ou de dizerem que levei uma patada que me chateia, mas o facto de chamarem a isso argumentos.

      Mas pronto: só posso sugerir que sigam o conselho do mestre e que “vão bater punho com convicção” para outro lado.

      • Sofia diz:

        Caro Mário Moura,

        A frase «só posso sugerir que sigam o conselho do mestre e que “vão bater punho com convicção” para outro lado.» foi a coisa mais linda que alguma vez li nas malhas da internet.

        Nem precisa de publicar este comentário: só queria que o soubesse.

  8. joao volz diz:

    Política e ecologia? Peço desculpa, mas como li algures que nos últimos oito anos tinha centrado as suas preocupações discursivas nas problemáticas do design, presumi que o assunto lhe despertaria algum interesse. O erro foi meu. Gostaria apenas de deixar claro que eu não o apelidei de mesquinho porque não tenho por hábito adjectivar livremente sobre pessoas que não conheço. Apelidei de mesquinho o tom do texto. Sendo mesquinho sinónimo de escasso de recursos e considerando a nobre elevação estilística de metáforas como “espécie de Marco Horácio dobrado pelo Fernando Rocha”, parece-me não ser preciso dizer muito mais.

    Vá, passar bem.

    • Ao cavalheiro do comentário,

      Pela minha parte, só posso dizer que achei o tom do seu comentário ofensivo, talvez devido ao uso de palavras como “mesquinho” e “altivo” – é apenas uma impressão –, e conforme é o meu hábito regulei o tom da discussão para “pouco acima de troll” – entretanto já desceu ainda mais. Pela minha parte, numa discussão pública evito apelidar os argumentos de quem discute comigo de “mesquinhos” ou “altivos” ou até “estúpidos” até que tal seja inevitável e, tendo-o feito, procuro demonstrar porquê. Vejo que no seu caso, embora tardiamente, houve um esforço semelhante: diz vossa excelência que mesquinho é sinónimo de parco de recursos e que o termo foi aplicado a uma certa metáfora da minha missiva. Repare que não é tanto uma metáfora como uma analogia e é mais uma imagem que qualquer uma das duas, tendo em conta que é um encadeamento de analogias. Considerando que o discurso do cavalheiro sobre o qual recai a discussão está pontuado de apelos expressos ao “descaramento” e à necessidade de “bater punho convictamente” reconheço que a minha analogia com dois comediantes brejeiros talvez pareça despropositada mas, se estiver disposto à experiência, verificará certamente que existe um paralelismo evidente entre as rábulas de Rocha ou Horácio, caracterizadas pelo uso de um certo tom vernáculo associado a determinadas regiões do país e o discurso de Miguel. Confio que sim. Preferiria dizer o que acabei de dizer de maneira mais económica, afirmando apenas que desvalorizar um argumento porque é mesquinho e altivo é um argumento estúpido que não costuma melhorar o nível de uma discussão, mas teria receio que os meus esforços fossem considerados mesquinhos e altivos.

      Sem outro assunto me despeço desejando a melhor das sortes,

      Mário Moura

  9. …o rebanho a bater punho em defesa de seu pastor.

  10. Ui, qualquer dia de tão precário que o nosso mercado de trabalho estará só teremos pão e água na mesa mas teremos de continuar a “bater o punho com sagacidade” e a criar estratégias de empreendedorismo da treta para tentar aparecer no telejornal para que no fim com sorte arranjemos “quantidades bíblicas” de trabalho.

  11. […] há quem diga que o que falta em Portugal é iniciativa ou descaramento – sabendo que é praticamente impossível parar uma iniciativa asneira uma vez começada e que […]

  12. Hélder Mota diz:

    O que falta em Portugal é bom-senso e vergonha na cara.
    Para algo mudar, não adianta falar alto ou bater os punhos. A base tem de ser re-estruturada.
    Muitos poderão discordar mas a base consiste nos políticos, nos que colocamos constantemente no topo da cadeia.
    São eles que têm de mudar, sendo que os degraus seguintes consistem na aplicação do que decidem, nos mais diversos sectores.
    Mas é óbvio que nunca mudarão.
    Vivemos numa democracia anárquica. Quanto mais dinheiro tens, mais anárquico podes ser, quanto menos tens, mais democrático tens de ser.

    O que falta a Portugal é gente com princípios e coragem para os defender.

  13. Jota Quest diz:

    Business in the front, party in the back!

  14. Sofia diz:

    O que me faz mais confusão nisto tudo, é apelidarem de “empreendedor” o protagonista desta discussão. Este termo está, habitualmente, associado à inovação. Numa rápida busca pela internet, rapidamente encontramos outros oradores com o mesmo discurso e conteúdo, simplesmente noutra geografia, bem como tantas consultoras que oferecem os mesmos serviços corporativos.

    Quanto muito, trata-se de um convencional empresário, que gere o seu negócio e que, agora, até está a receber publicidade gratuita, dado o destaque que merece em diferentes meios.
    Longe de mim ofender quem quer que seja, mas em boa verdade apresenta um serviço que vem colmatar uma necessidade no mercado.

    O serviço comercializado é pura motivação e conteúdos de desenvolvimento pessoal, que facilmente cola naqueles que precisam desse impulso e de ter alguém que acredita neles.

    Mas quais são os resultados concretos? Qual a taxa de empregabilidade que o So Pitch gera? Isso é que conta e não encontro publicitado em lado algum, a não ser num dos comentários acima (“80 pessoas”).

  15. marco a costa diz:

    O que este ventríloquo faz não é mais do que dizer que, o importante não é demonstrar que “fazes bem”, mas sim, levar as pessoas a “pensar que fazes bem”, completamente independente do facto de o “fazeres bem ou mal”… ele próprio é o melhor exemplo disso. De uma coisa estou certo… “bater o punho sagazmente” é garantido!

  16. Specwork diz:

    Pessoal o que este sr faz não é nada mais do que ter lido os livros de Marty Neumeier “Zag”.
    Este tipo de politicas que este “gajo” só está a criar condiçoes precárias de trabalho, fazendo com que a entidade patronal pague mal exija muitas horas.
    Quanto aos criativos apresentarem ideias inovadoras para as empresas, eu concordo mas as ideias pagam-se.
    O dono desta empresa faz exatamente o que este faz, com o mesmo tipo de discurso o que leva os criativos a trabalharem para ele durante seis meses sem receber a fazerem trabalho normal e no fim vao todos embora e vai mais gente trabalhar para lá.
    https://ressabiator.wordpress.com/2011/11/26/ha/

  17. Investidor diz:

    Boas
    A ideia é pensar positivo e fazer coisas.
    Pode-se por exemplo fazer workshops de “como conseguir um emprego” 😉
    Cumprimentos

  18. Hélder Mota diz:

    Eu diria que pensar positivo é muito complicado, mas concordo plenamente com o facto de fazer coisas.
    Toda a gente sabe que não é por ficar a lamentar-se que vai conseguir algo.
    Não me parece que faça sentido pensar no mundo como se pensava há poucos anos atrás. O mundo é pequeno e Portugal não deixa de ser um país de esquemas. Refúgio dos políticos e dos oradores como o fala-barato que se manifesta no vídeo.
    “Dêem as vossas ideias a outros e trabalhem inicialmente de graça para depois ficarem, com a melhor das hipóteses, com um emprego em que vos pagam uma miséria. E até chegar o emprego, desloquem-se a pé, durmam na rua e comam lixo, enquanto trabalham numa ideia, num esquema qualquer..”

    Ideias..

    Quanto à nossa área, parece-me difícil ter entusiasmo quando nem sequer há ministério da Cultura. Mas isto já é outra conversa..

    • Thierry diz:

      Concordo mas a questão do Ministério da Cultura é uma falsa questão pois a produçao de “cultura” não baixou com o desaparecimento do ministério. Até terá aumentado. Ou seja não mudou nada. Ter um ministerio só por ter me faz lembrar os mestrados do “Pós Bolonha”.

  19. […] Já foi há uns meses, talvez mais de um ano, não tenho como saber. Acabava de entrar no Alfa Pendular em Campanhã. O comboio vinha de Braga, já com alguns poucos passageiros. Ocupei o meu lugar na carruagem 3, mesmo junto á porta do bar, de costas para a marcha. Abri o meu computador, tirei alguns livros da mochila. Uns lugares à minha frente, num daqueles grupos de assentos rodeando uma mesinha, reparei numa cara familiar, a dormir profundamente, boca escancarada e pregas de bochecha contra o vidro. Demorei um segundo a situá-lo. Era o cromo do Prós e Contras, o homem do “bater punho com sagacidade”. […]

    • JM diz:

      Marco, o custo zero…não era o do emprego jovem, mas sim o do “apadrinhamento”. Ele é que vai trabalhar a custo zero…

      • marco a costa diz:

        JM, o meu link serve apenas para evidenciar mais uma atitude sem pés nem cabeça deste governo apoiada na figura daquela “espécie de Marco Horácio dobrado pelo Fernando Rocha”.
        Quanto ao custo zero, preferia muito mais que ele fosse trabalhar a receber…. assim sempre poderia ter o direito de reclamar da me*** que ele vai fazer…

  20. […] um post ou dois sobre o assunto. O nome do segundo, “A Máquina de Fazer Crescer Relva”, até […]

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