The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A anedota

No ambiente actual, até as coisas mais óbvias precisam de ser ditas e reditas, caso contrário habituamo-nos a elas. Portanto aqui vai: os sucessivos governos têm cortado os apoios às artes em grande medida porque estas são vistas como um luxo, uma coisa supérflua. É uma posição populista que não se belisca com a possível contradição de se continuar a apoiar as grandes instituições, a arte de grande escala, o empreendedorismo, tudo em geral luxuoso.* O que fica pelo caminho é a raia miúda das artes, que se auto-financia com empregos no ensino, nas grandes instituições, etc. A arte de pequena escala não desaparece mas continua a ser produzida a custo zero, em condições cada vez mais precárias e desautorizadas.

Mas que interessa isso? Calculo que boa parte dos artistas nem sequer vota ou, quando vota, nunca votaria num dos partidos do eixo governativo, em especial os mais à direita, portanto é provável que estes não sintam qualquer obrigação de representar esta gentalha, que sempre que possível lhe faz oposição. Portanto não admira que se chumbem os apoios às artes, quando não se vê as artes como uma coisa útil, nem sequer um emprego.

Mas os artistas, quando têm dinheiro, gastam-no como todas as outras pessoas. Se calhar até contratam um designer, que com o dinheirito ganho fica mais à vontade para se conseguir manter em actividade, conseguindo investir num almocito com um potencial cliente, em vez de comer em casa, dando assim uns tostões ao dono do restaurante, que paga assim ao fornecedor, e todos eles, com um bocado de sorte, ainda pagam alguns impostos disto tudo.

Não havendo dinheiro, todas estas coisas vão secando, vão recuando até à estaca zero, desaparecem. As artes em Portugal ainda vão sendo uma pequena ecologia que revitaliza bairros e hábitos, que atrai clientes e turismo de além fronteiras. Não se gasta assim tanto dinheiro com as artes em Portugal — como se pode ver pela magra fatia do gráfico do portal do Governo que indica como são gastos os nossos impostos  – mas o pouco dinheiro aí investido paga um monte de outras coisas, no fundo o salário de outras pessoas.

O corte na cultura é um corte político, uma forma de censura, no fundo, mas com consequências em toda a sociedade, exterminando toda uma ecologia, que sem esse investimento desaparecerá sem remédio, sendo necessário começar tudo do zero da próxima vez, como de costume. Lembro-me da Rita Blanco dizer com toda a razão que um país sem cultura é uma anedota, mas não será uma anedota dita por nós, porque até uma anedota é cultura.

(E este é o post número setecentos)

*O que só reforça a ideia que é preciso cortar no luxo.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

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