The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Inovação Pimba

Já o tinha dito por aqui umas tantas vezes, mas o que assusta nesta versão portuguesa da crise é o apagamento de umas tantas décadas de cultura, com gerações inteiras a voltarem ao mesmo tipo de negócios que os seus bisavôs e trisavôs: tascas, mercearias, artesanato, bibelôs, tudo adjectivado de “urbano”,  tudo com uma fina camada de design, com uma exposição de qualquer coisa pendurada a um canto, uma inauguração ou um djset de quando em quando. São o negócio e a cultura possíveis mas também uma espécie de desistência.

A arquitectura, uma parte da cultura portuguesa que ainda se orgulhava colectivamente de qualquer coisa, com um passado de luta contra a casa de emigrante, do pato bravo, de investimento em projectos colectivos de  carácter social, de ambições teóricas e políticas, com prémios internacionais, vira-se agora para barragens de utilidade duvidosa, ecologia suspeita e justificação estética pindérica. O arquitecto de topo, já sem grande ambição ética, social ou política, usando o reconhecimento internacional como argumento de autoridade para calar a ralé, dedica-se a ser uma espécie de super pato bravo de serviço, sempre disponível para legitimar os projectos mais estrambólicos e lesivos, desde que pagos.

Do lado do emprego, continua-se a valorizar o gestor enquanto se dispensa e humilha a mão de obra – a solução mágica para o desemprego continua a ser a transformação de cada desempregado numa empresa de uma pessoa só, melhorando as estatísticas de empreendedorismo sem qualquer tipo de consequência que não isso mesmo. Nas artes, como é evidente, o mesmo: cada artista vai-se tornando num comissário a título individual. E se quiser rentabilidade, que abra a sua tasquita urbana – ver primeiro parágrafo.

O estágio – que é como quem diz, uma espécie de corveia moderna – tornou-se o modelo dominante de inserção no mercado de trabalho. O emprego, em áreas como o design, já não consegue distinguir-se do processo de selecção para esse emprego, em estágios não remunerados cada vez mais prolongados que, para os sortudos, darão lugar a estágios subsidiados pelo Estado e, finalmente, talvez, muito pouco provavelmente, um contrato. O novo acordo de concertação social não fez mais do que espalhar a precariedade a todo o género de emprego – era inevitável, quando se sabe que a própria ideia do estágio enquanto emprego, de procurar emprego enquanto emprego, é glorificada pelos concursos de televisão, onde um conjunto de aspirantes se esfalfa durante meses apenas pela possibilidade de um emprego. Não espanta portanto que muitas empresas e empreendedores comecem a fazer dos estágios eventos colectivos de participação, colaboração, etc. – a televisão já lhes fez a papinha.

Por tudo isto* se vê que nada mudou, aquela coisa da inovação não passa de encontrar maneiras airosas de voltar às estratégias e à cultura de mil novecentos e poucos, tentando acreditar que a solução para tudo isto é sermos cada vez mais nós mesmos, patos bravos, chicos espertos, desenrascados, pimba.

*Mais o apelo à emigração como desígnio nacional.

Anúncios

Filed under: Arquitectura, Arte, Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Estágios, Política, Prontuário da Crise

5 Responses

  1. A verdade é que a crise, mesmo não atingindo aqui o Brasil, tem diversos reflexos que nem mesmo este excelente texto foi capaz de abordar.
    O ponto do retrocesso no empreendimento é um dos mais brilhantes aqui ressaltados, mas, com o movimento de contracultura, quem sabe diferenciar uma lojinha familiar em crise e uma mega loja chique com design antigo?
    Tempos de crise, que, graças aos céus, longe estão do Brasil.

  2. Jorge Salvador diz:

    Portugal no seu melhor!!!!

  3. Sofia diz:

    Creio também ser importante reflectirmos sobre uma espécie de campanha de regresso ao meio rural e suas práticas (quase vivendo sem electricidade), que tem vindo a ser feita nos diferentes canais, em pleno espaço noticioso de horário nobre.

    • Paulo diz:

      É a falta de Eletricidade, mais o estrume dos porcos, vacas, cavalos, não há ligações há internet, nem giletes ou cera para fazer o buço, já nem falo do terror que será andar de saltos a caminho da missa ao domingo.

  4. É o resultado de um penoso e muito evidente processo de erosão do espírito crítico, do sentido estético e da inteligência social, com o incentivo institucional & corporativo. Hoje, “reagir” equivale a “safar-se”, e “cultura” equivale a “expediente”. Poderá dizer-se que, neste momento, é justificável, mas está a transformar-nos num “showcase” consentido das piores práticas laborais e do empreendedorismo mais saloio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: