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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Indústrias (Jornalísticas) Criativas

Ainda em avaliações e com pouco tempo para postar por aqui. Portanto só uns pormenores, irritantes por sinal.

Mais uma vez, os jornais portugueses dedicam-se a ler coisas que se escreve lá por fora sobre nós e a traduzi-las, não exactamente para português, mas para “sensacionalista” ou para “simplesmente falso”. A coisa é visível sempre que Krugman diz qualquer coisa a propósito de Portugal ou da crise Europeia.

Hoje o Público comenta – essencialmente traduz – um post no seu blogue criticando mais uma vez o austeritarismo europeu, acusando os seus defensores de amnésia por terem esquecido todas as lições da Grande Depressão. Até aqui tudo bem, mas é evidente que vieram logo os austeróidezinhos locais dizer que o próprio Krugman é que sofria de amnésia porque dias antes tinha defendido o corte de 20% em relação à Alemanha ou que em outro post tinha dito que as finanças portuguesas eram insustentáveis antes da crise, e que, portanto, estaria  a defender a austeridade.

Cada uma destas ideias deriva de traduções “interpretativas” por parte do Jornal de Negócios. Quem se der ao trabalho de ler os artigos originais, comparando-os com a “adaptação para filme”,  verifica facilmente que alguém andou a tirar conclusões abusivas.

No caso do artigo das finanças portuguesas insustentáveis, não era Krugman que o dizia mas um estudo por ele citado para demonstrar que o volume da dívida portuguesa e grega, as supostas economias fiscalmente irresponsáveis, juntas são relativamente irrelevantes no total da dívida europeia. Não recomenda qualquer tipo de austeridade. Nem corrobora os resultados do Estudo como o JdN conclui. Krugman limita-se a citar os números referidos no tal estudo, não concordando ou discordando das suas conclusões. Como devia ser evidente, é perfeitamente possível concordar com os dados usados para sustentar um argumento, mas discordar da conclusão ou do próprio argumento.

Em outros artigos do mesmo do mesmo blogue, por exemplo, Krugman afirma que Portugal nas vésperas da crise não era mais irresponsável que a Alemanha. Acredita que é preciso alinhar os preços e os salários com o resto da Europa, mas defende que tal deve ser feito, não através da austeridade ou da deflação (a estratégia actual), mas da inflação ao nível Europeu, muito menos dolorosa para os países da periferia. Desvalorizando o Euro, a dívida valeria menos, e os salários da periferia europeia poderiam ser ajustados sem terem de ser negociados caso a caso, destruindo pelo caminho a Estado Social. Só uma nota: Krugman defende a austeridade, mas apenas nos tempos das vacas gordas.

O grau zero de jornalismo de investigação actual consiste em ir lendo o que se escreve pelas redes, mas até isso precisa de talento, rigor e separação entre opinião e reportagem, ambições que neste momento parecem andar acima das capacidades do Jornal de Negócios.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Prontuário da Crise

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