The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Barragem Cultural

Não é particularmente difícil inovar. Basta muito simplesmente fazer alguma coisa que ninguém tenha feito. Por exemplo, António Mexia no Público de hoje descreve uma série de intervenções por parte de artistas plásticos em barragens do Douro como uma inovação, tal como será uma inovação convidar alguns Pritzkers, nacionais e internacionais, para projectarem outras tantas dessas barragens. A inovação consiste aqui em usar o crédito cultural dos artistas e arquitectos para minimizar uma intervenção bastante destrutiva na paisagem e nos ecossistemas da região. Torna-se assim a administração patrimonial numa espécie de contabilidade aritmética: menos uma paisagem e mais uns tantos monumentos. Outra inovação é dar nomes de marcas a estações de transportes públicos. E vai-se percebendo um padrão: a inovação vai sendo uma designação para a erosão lenta e irremediável de um património comum que ainda ia sendo protegido por uma lei ou tradição qualquer. Ás vezes há boas razões para nunca ninguém ter feito uma coisa.

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Filed under: Design

Mal Entendidos

Lendo as notícias sobre a vinda de Paul Krugman a Portugal e sobretudo os comentários acusando as suas declarações que deveríamos cortar os salários em cerca de 20 a 30% em relação à Alemanha mas também evitar mais austeridade de serem uma contradição básica confirma-se que boa parte da população não percebe do que se está a falar quando se fala de austeridade.

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Competição

Dizer que o design é uma actividade competitiva não é propriamente uma novidade, mas duvido que a maioria dos designers se tenha dedicado realmente a perceber quais as características dessa competição. Ora, de acordo com os nossos amigos economistas, há vários modelos possíveis de competição, com estruturas muito distintas: a competição perfeita, a competição monopolista e os monopólios ou oligopólios.*

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

Ainda estou vivo

(Mas cheio de trabalho, com o começo do semestre, a conferência de hoje e uns tantos textos de longa duração em vários estados de conclusão).

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Jornadas Cantianas

Um ciclo de conferências à volta da figura de Paulo de Cantos, “1º Surrealista Português em Grafismo”, organizadas pela Oporto (todos eles Cantianos de nota) e contando com a presença de Massin. M A S S I N ! ! ! (se eu não fosse um dos moderadores, já estava a fazer bicha em frente ao Adamastor – ainda faltam dois meses mas o tempo até já está ficar quente).  A imagem é um gif animado, experimentem clicar.

Update: as sessões do Oporto costumam ser por baixo do Noobai, atrás do Miradouro de St. Catarina em Lisboa. A hora exacta ainda não sei dizer.

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Tudo o que desce…

Este governo – como tantos outros antes dele, é verdade, mas nunca com tanta intensidade como este – não se cansa de pedir iniciativa, de exortar à coragem, de reprovar a pieguice, etc.

Propõe-se apoiar as iniciativas de sucesso que captem investimento privado, se possível estrangeiro, promovendo o país lá fora sem gastar dinheiro dos nossos impostos. Não sei se haverá melhor exemplo disto que o último filme de Miguel Gomes, financiado a 60% por privados nacionais, 40% por subsídios estatais estrangeiros e premiado num festival de renome. Mas qual é a política do governo para esta área? Cortar todos os apoios que impliquem mais do que mover os lábios, propagando pela atmosfera aquelas coisas a que se costuma chamar “treta”.

É claro que não chega a ser propriamente uma contradição, porque a imagem que o neoliberal faz de uma iniciativa de sucesso nunca será a de um projecto cultural, mas a de uma pequena e média empresa, com funcionários satisfeitos com o seu salariozito competitivo mas honrado, gente plenamente consciente da mobilidade laboral inerente às economias modernas – se este emprego os desiludir, serão eles próprios a despedirem o seu patrão, procurando uma alternativa melhor, mesmo em outra cidade ou país.

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Salazar & Sobrinhos

O pior cego é o que não quer ver, que foi treinado para não querer ver, às vezes durante gerações.

Em tempos, li uma história sobre uma colónia Viking na Gronelândia que num inverno particularmente rigoroso, depois do seu gado ter morrido à fome, teriam também morrido porque o peixe não era considerado um alimento digno.

Cá em Portugal acontece a mesma coisa em relação em relação aos direitos do trabalhador – é de mau tom lutar por eles. Não está na moda.

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Entrei numa realidade alternativa onde havia cultura em Portugal

Antes de começar propriamente, uma anedota: outro dia à hora do jantar cruzei-me com uma amiga  que se apressava para ir ao cinema. A maneira casual como disse isso, em plena baixa da cidade, sem indicar qual o filme ou o cinema a que ia causou-me uma estranheza geográfica que não consegui explicar por um momento, como se tivesse entrado de repente num universo paralelo: em Portugal, já praticamente só é possível estar atrasado daquela maneira na baixa de Lisboa. No Porto, em Coimbra ou Vila Real ir ao cinema já não é para mim uma coisa tão casual, nem tão cheia de possibilidades. Tirando as sessões esporádicas em sítios mais ou menos alternativos e os raros festivais, o cinema limita-se aos centros comerciais e às estreias das últimas semanas, pouco melhor que nada. Viver fora de Lisboa significa que a maioria do cinema e da sua história são consumidos através de um ecrã de televisão ou de computador.

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Conferência Culturgest

Na próxima sexta às seis e meia terá lugar a quarta das conferências que estou a dar na Culturgest. O objeto que serve de tema a esta conversa não é, à primeira vista, um livro mas o Navio Vazio: um pequeno espaço de cerca de seis metros quadrados, na Rua da Alegria no Porto, outrora uma oficina de duplicação de chaves. Aqui exibem-se objetos e desenhos de vários autores nacionais e estrangeiros, dão-se conferências e lançam-se pequenas publicações de todos os tamanhos e feitios. Poder-se-ia dizer que se trata de uma galeria ou de uma livraria com objetivos talvez mais amplos do que os tradicionais, mas aquilo que torna o Navio Vazio o objeto desta conferência é o facto de não ser gerido curatorialmente, como um espaço de exposições, mas editorialmente, como se fosse um livro. Ou seja, é apresentado pelos seus criadores como sendo ele próprio um livro – e a ideia não é aqui criar uma analogia entre espaço e livro, mas usar o processo de edição como modo de organizar um espaço, opondo-o a outros modelos como a curadoria, a gestão ou o design de exposições.
Numa época em que a leitura se faz cada vez mais em suportes eletrónicos, e em que mesmo as publicações mais tradicionais acabam por ser encomendadas e consumidas através da Internet, a edição, a distribuição e a venda de livros tem assumido muitas vezes um caráter performativo, experimental, que investe conscientemente na proposta de uma leitura lenta, pausada, e na capacidade dos livros para criarem comunidades – estratégias que são visíveis tanto no Navio Vazio como em projetos como A Estante (uma livraria ambulante reduzida a uma estante que se vai juntando a eventos, conferências ou exposições) e Dexter Sinister (workshop e “livraria ocasional” em Nova Iorque).

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Stock Market

Se há uma prova que o design não faz parte das estratégias para o futuro de Portugal – para além do balúrdio gasto a imprimir o programa de governo – são os belos slides que o Ministro da Economia Finanças apresentou na London School of Economics e dos quais apresento aqui apenas os que se referem ao admirável mundo novo que virá da aplicação da sua estratégia (o resto pode ser encontrado aqui). Pelos vistos, quando fala de recuperar a confiança das agências e dos stock markets, o ministro está-se a referir àquelas agências que fornecem fotografia de stock.

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…mas é um homem tão sério…

Há já algum tempo que Passos & cia. – Cavaco incluído – já caíram abaixo de Sócrates. Digo isto descontando o mais que me é possível a sua ideologia cada vez mais evidente. É um governo feito por gente que derrubou outro governo porque andava a abusar dos portugueses, e que depois tomou medidas que acabariam por ser extremas comparadas com as do seu antecessor. Desculpou-se com o desconhecimento do contexto que era pior do que esperava. Depois dedicou-se a “ir além” das medidas que lhe eram impostas pela Troika, tornando-as progressivamente piores para a população. E agora já começa a sugerir que ninguém o obrigou a tomar estas medidas, que o faz apenas pela sua própria convicção, precisamente na mesma altura em que, internacionalmente, se duvida cada vez mais da sua eficácia. E se dedica regularmente a uma agressividade e a um paternalismo gratuitos, autoritários contra a população que representa.

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Corajoso Derrotismo

Pasma um bocadinho que a austeridade neoliberal seja considerada corajosa e responsável, tendo em conta as suas premissas.

Vejamos: se alguém mais à esquerda sugere alternativas que sacrifiquem menos a população ou que tornem esse sacrifício num investimento numa sociedade menos desigual, mais inteligente, com mais oportunidades para todos, independentemente do seu nascimento ou conta bancária, o neoliberal responde  que nada disso é já possível: o desemprego é estrutural; o estado social falhou; a Europa está destinada ao declínio face às economias emergentes, e portanto, se não é possível melhorar o emprego, a sociedade ou a Europa, mais vale apostarmos no neoliberalismo. Ou seja, o neoliberalismo não é aplicado a uma situação má porque pode ser melhorada mas porque não pode ser melhorada – e a sua lógica, essencialmente conservadora, depende disso mesmo.

A mesma argumentação derrotista já foi aplicada durante a Grande Depressão, defendo-se que o desemprego era estrutural e as economias ocidentais estavam destinadas ao declínio. Como se sabe isso acabou por ser resolvido em grande medida graças à aplicação de uma consciência maior das causas do desemprego e da maneira de o evitar, condensada na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de Keynes. É claro que a crítica actual à aplicação destas velhas ideias defende que a situação mudou e que o desemprego é estrutural e as economias ocidentais estão destinadas ao declínio. E por aí fora, e por aí adiante.

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O Regresso do Grafismo

Mais uma vez o Público vai mudar de aspecto, quase cinco anos depois da última renovação. A notícia fala de “grafismo” e não de “design” e se já me queixei deste arcaísmo no passado, hoje eu próprio já começo a ficar impaciente quando vejo a palavra “design” aplicada à comunicação e significando uma postura editorial mais ligeira e visual do que profunda ou até minimamente interessante. Cada vez gosto mais dos grandes ensaios da Believer ou da New Yorker, dos artigos e opinião do New York Times que não costumam ser resumos ou bitaites. Não consigo deixar de me rever, portanto, nas intenções dos editores do Público:

“Há cinco anos, pensámos num jornal com dois tempos de leitura — a leitura rápida no primeiro caderno e a leitura mais demorada no P2 e nos suplementos. As alterações entretanto ocorridas levam-nos a adequar esse modelo ao tempo de hoje, aplicando ao jornal no seu todo o conceito que começámos a testar há oito meses nas edições de domingo: um jornal diário que aposta na leitura aprofundada e nos géneros nobres do jornalismo. Hoje, os leitores querem encontrar no jornal impresso mais do que já viram e leram no dia anterior na Internet e na televisão.”

Resta, como é evidente, ver se o novo grafismo dá certo.

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“Compromisso de Portugal”

Em vez de andar a fazer coisas mais úteis, andei pelo Base à procura de quem possa ter sido o designer do tal programa do governo e só consegui encontrar o contrato de ajuste directo com a Maiadouro, onde é usada a expressão “Serviços de concepção gráfica”, que parece dar a entender que o design também foi feito pela gráfica. Não encontrei mais vestígios de contratos no Base (de ajuste directo ou outros) relativos a este trabalho. Se realmente o design foi feito na gráfica, dentro dos padrões de design e produção feitos para o Estado até foi um trabalho barato.*

Em todo o caso, chamo a atenção para um pormenor: o Público identifica o documento como “Compromisso para uma Nação Forte”; no portal este surge como “Compromisso de Portugal”. Esta última versão sugere que o público-alvo – ou pelo menos os seus beneficiários – não são propriamente os portugueses. Lapso Freudiano?

*Sarcasmo.

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O Bom Aluno

Só para assinalar uma série de artigos e ensaios no New York Times a propósito da dívida portuguesa. A peça principal, escrita por Landon Thomas Jr. tem como pano de fundo a ideia que apesar de Portugal ser o menino bonito da crise Europeia, pondo em prática todas as medidas impopulares impostas pela Troika com um mínimo de protesto, ainda assim – e por causa dessas mesmas medidas – a dívida tem aumentado porque a economia real tem contraído. Há também um painel a discutir a situação, possíveis soluções e desfechos. A ler.

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Desktop

Já tinha dito por aqui os designers gráficos não são os descendentes distantes dos tipógrafos mas uma outra espécie que veio ocupar o mesmo nicho ecológico depois da sua extinção. Libânio da Silva por exemplo era considerado um industrial, e uma gráfica seria portanto uma pequena fábrica.

Os antepassados dos primeiros designers gráficos foram arquitectos, artistas ou publicitários que, a pedido de clientes, criavam um projecto para ser executado nessas fábricas. Geriam um processo industrial à distância, racionalmente – ou seja, sem sujar demasiado as mãos.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

É programático

Confesso que não me surpreende muito que o programa impecavelmente neo-liberal deste governo tenha sido impresso numa bela edição limitada de 100 exemplares, capa em tons de cinza-prata e batente, a 120 euros cada um: se não faz sentido no conteúdo e na função, é justo que não o faça na forma. E é claro que foi um ajuste directo. E é óbvio que foi o preço mais barato de uma consulta informal a três gráficas e que o responsável pelo descalabro foi o Ministro Miguel Relvas. Não surpreende também que as gráficas façam preços destes ao governo, tal como não surpreende que os próprios designers trabalhem muito acima do preço de mercado quando têm este belo cliente.

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Medalhitas

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Neste fim de semana, fui ao lançamento do livro “Atlas de Parede” sobre os processos de trabalho do arquitecto Eduardo Souto Moura. A ocasião serviu também de evento inaugural para a nova sede da Trienal de Arquitectura de Lisboa, uma antiga escola bonita de tectos estucados, corrimões de ferro ornamentado e um átrio em calçada portuguesa miudinha, mais delicada que a da rua. A sala destinada ao lançamento foi pequena para a afluência e muitos optariam por ver a conversa projectada em vídeo, sentados sobre o empedrado frio do átrio.
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Misérias relativas

Já sabíamos que os nossos ricos na verdade até pensam que são pobres. Agora o Passos vem dizer que até acha os políticos portugueses mal pagos. Sim, porque – como diria o Lewis Carroll – lá fora há montanhas tão grandes que as nossas ao lado delas até são vales. Ou seja, se temos um problema de desigualdade é entre os nossos ricos, os nossos políticos e os equivalentes lá de fora.

Mas, agora a sério, se Portugal tem uma desigualdade maior que o costume, isso não significará que se os nossos ricos são pobres, os nossos pobres são mesmo muito mais pobres do que os de lá de fora, ou coisa do género?

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A coerência já não é o que era

Sempre que este governo diz qualquer coisa polémica, apela à emigração, acusa a população de pieguice, e inevitavelmente lhe cai toda a gente em cima, a primeira linha de defesa é declarar que as afirmações foram retiradas do contexto, a segunda linha de defesa é que não podem ser postas no contexto.

Um dos últimos textos de Pedro Lomba no Público é um bom exemplo: Jorge Sampaio, José Sócrates e Ferreira do Amaral em várias ocasiões públicas reprovaram a lamúria portuguesa e ninguém se queixou; agora Passos reprova a pieguice e toda a gente se queixa? Onde está a coerência?
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Filed under: Design

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
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