The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Missão

De vez em quando encontro alguém que me diz que o blogue está mais politizado e que ando a escrever menos sobre design. Na verdade, não: nos velhos tempos, escrevia um ou dois textos por semana, uns dez por mês; agora escrevo uns sessenta. Escrevo agora muito mais sobre design mas – reconheço – muito mais sobre outras coisas, sejam elas política, arquitectura, arte, literatura, opinião, etc. Não é que o design se tenha tornado menos importante, mas porque numa época como esta é preciso resistir à especialização dos discursos, que no fundo é uma maneira de manter tudo no seu devido lugar.

Na arte contemporânea, por exemplo, ainda se usa o paradigma mais ou menos modernista do artista que garante a sua autonomia através de um discurso silencioso, ambíguo ou hermético, deixando a terceiros, críticos, historiadores ou comissários, a tarefa de integrarem o seu trabalho na sociedade em geral. O resultado tem sido uma arte isolada que mal tem recursos discursivos ou políticos para se defender a si mesma quando há cortes.

No design, acontece um processo semelhante, com um fechamento em torno daquilo que se considera a actividade legítima do designer, feita humildemente para um cliente, sem fricalhices, etc. Fora isso, as tentativas de integração na sociedade fazem-se através da luta por uma protecção legal ao exercício do design por designers licenciados, etc. As preocupações políticas e éticas tendem a ser mais temáticas e externas – um serviço feito para determinados clientes – do que reflexões sobre a organização laboral e política da própria profissão, etc.

Pelo contrário, uma altura como esta pede um escrutínio total e constante. Walter Benjamin dizia que não se afina um mecanismo vertendo uma lata de óleo sobre ele, mas oleando cuidadosamente as engrenagens que se conhecem bem, querendo dizer que não é através de grandes tratados generalistas que se intervém, mas através de mil e um panfletos muito específicos, sobre tudo e mais alguma coisa.

Benjamin opunha à estetização da política por parte dos Nazis, a necessidade de uma politização da estética. Neste momento, a mesma oposição tornou-se impraticável porque a direita não acredita sequer na política, excepto como uma forma especializada de gestão legal ou económica – uma carreira profissional, no fundo. Só a esquerda acredita ainda naquela coisa do governo através do debate público de ideias. Para inverter a tendência será necessário reinventar um espaço para a política, uma tarefa difícil que terá de ser feita caso a caso, porque a gestão não é apenas um processo, mas também uma estética, monumentalizada pelas artes, por exemplo, através de um culto do comissariado – há assim uma estetização da gestão que é preciso combater e, como agora a oposição é entre política e gestão, será necessário recuperar uma politização da estética.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

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