The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Medalhitas

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Neste fim de semana, fui ao lançamento do livro “Atlas de Parede” sobre os processos de trabalho do arquitecto Eduardo Souto Moura. A ocasião serviu também de evento inaugural para a nova sede da Trienal de Arquitectura de Lisboa, uma antiga escola bonita de tectos estucados, corrimões de ferro ornamentado e um átrio em calçada portuguesa miudinha, mais delicada que a da rua. A sala destinada ao lançamento foi pequena para a afluência e muitos optariam por ver a conversa projectada em vídeo, sentados sobre o empedrado frio do átrio.

Mais até do que o livro, um exemplo do bom trabalho editorial de André Tavares e da Dafne, com design do irrepreensível João Faria (salvo erro, não tenho o Atlas à mão), impressionou-me a conversa do arquitecto e sobretudo o seu vocabulário, onde tinha lugar de destaque a palavra “Pritzker”. Se não me falha a memória, especulou que, se aqueles rapazes o tivessem abordado com aquele projecto depois do Pritzker, tê-lo-ia considerado talvez oportunista. Contou a história dos emissários de um Sheik de Abu Dabi que teriam sido incumbidos de arrebanhar uns tantos Pritzkers para concorrerem a um projecto. Siza Vieira estaria fatigado e aconselhou-lhes Souto Moura, o colega mais novo do andar de baixo. Os emissários agradeceram a recomendação, lamentando contudo que não era um Pritzker, ao que o arquitecto mais velho respondeu: “Mas há-de ter.”

Falou-se da crise que já leva muitos ateliers a dispensarem colaboradores na ausência de projectos, mas também se falou das câmaras que, tal como a ecologia, não deixavam que as coisas se fizessem. Na altura em que foi premiado, Souto Moura disse que talvez agora o deixassem fazer finalmente o que queria, deixando a sugestão que, mais do que uma consagração, o prémio lhe daria uma autoridade que lhe permitiria passar por cima dos obstáculos do costume, o que é uma perspectiva mais ou menos inquietante, tendo em conta que a sua especialidade se foi tornando o embelezamento de sorvedouros de dinheiro de retorno duvidoso – os estádios do euro -, de possíveis atentados ao património paisagístico e ambiental – a barragem do Tua, etc.

Um prémio, seja ele um Nobel ou um Pritzker, não deveria ser uma isenção das regras habituais da sociedade democrática que implicam necessariamente a discussão pública e alargada de assuntos de interesse público. Mesmo a ideia de que um assunto só pode ser discutido realmente por uma determinada classe – designers,arquitectos,artistas mas também políticos – é um corporativismo óbvio, que coloca os interesses de uma profissão acima da sociedade onde é exercida. Pelo contrário, se um assunto é realmente importante será sempre discutido e disputado por mais gente do que os seus praticantes profissionais. Não me parece acidental que, se até há pouco tempo, a grande palavra nos discursos de Távoras, Portas e Sizas era a Arquitectura, neste lançamento se tenha falado sobretudo dos Arquitectos – uma subtileza importante.

(imagem via Joana e Mariana)

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design

2 Responses

  1. ana diz:

    parece que a tal “escola bonita de tectos estucados, corrimões de ferro ornamentado e um átrio em calçada portuguesa miudinha, mais delicada que a da rua” não é antiga: http://cidadanialx.blogspot.com/2012/02/pais-contra-entrega-de-antiga-escola.html

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