The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Já tinha dito por aqui os designers gráficos não são os descendentes distantes dos tipógrafos mas uma outra espécie que veio ocupar o mesmo nicho ecológico depois da sua extinção. Libânio da Silva por exemplo era considerado um industrial, e uma gráfica seria portanto uma pequena fábrica.

Os antepassados dos primeiros designers gráficos foram arquitectos, artistas ou publicitários que, a pedido de clientes, criavam um projecto para ser executado nessas fábricas. Geriam um processo industrial à distância, racionalmente – ou seja, sem sujar demasiado as mãos.

Não era assim estranho que designers de produto e gráficos trabalhassem sob a mesma designação base: se uns trabalhavam com metais e moldes, os outros trabalhavam com os metais e moldes que eram as letras e as estereotípias.

Mas com o tempo e a chegada do computador pessoal, o designer gráfico começou a assumir tarefas distintas: as de uma espécie de secretário gráfico, uma versão moderna dos velhos escrivães. (É claro que alguns designers gráficos ainda fazem a tal gestão industrial, dirigindo também outros designers na tal posição subalterna de secretários.)

A história pode ser contada de outro modo dizendo que o design gráfico é agora, como muitas outras coisas em Portugal, um serviço e que a formação em massa de designers foi parcialmente suportada pela viragem do próprio país para este sector, fornecendo serviços de produção e organização gráfica de informação, publicidade, etc. para todo o género de empresas, incluindo de design.

Sustentando este processo de terciarização do design, houve também a viragem do ensino das artes para o modelo usado nas ciências exactas o que permite, do lado do governo, transformar boa parte da produção das antigas escolas de arte em investigação científica, acabando por tornar a burocracia no cerne da formação de um designer – e uma boa preparação para as tarefas que muito provavelmente irá exercer.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

6 Responses

  1. Mário:

    Tenho seguido fiel e atentamente este blog, mas, por motivos diversos, já há muito tempo que não deixo um comentário. Também acho que este assunto (a genealogia do designer) merece ser revisitado e discutido de forma continuada. Por isso, aqui vão algumas ideias novas e outras velhas relacionadas com este assunto

    Tal como no passado (e como bem sabes), não posso concordar da forma como expões esta opinião: “os designers gráficos não são os descendentes distantes dos tipógrafos”. E desculpa, mas a afirmação que fazes é perigosa. Libânio era tanto um industrial, como Gutenberg era um Industrial, como William Morris era um industrial, como qualquer produtor de algo é um industrial…

    E a lógica pode ser usada no sentido inverso – no futuro Francisco Pinto Balsemão irá ser considerado um Tipógrafo… Mas não. Não creio que assim o seja.

    Se, por um lado, não somos descendentes diretos (!) dos tipógrafos (como, de forma romântica, quero acreditar com todo o meu ser), também não o somos dos industriais.

    Isto porque, uma vez que o Designer é alguém que resolve um problema num contexto específico, então, tal como colocaste – “a pedido de clientes, criavam um projecto para ser executado nessas fábricas. Geriam um processo industrial à distância, racionalmente…”–, os antepassados dos designers também são os engenheiros, os físicos, os filósofos, os investigadores… Dito assim parece que todas as profissões surgem para resolver uma relação causal entre dois ou mais fatores, e que todas deram origem aos Designers.

    Assim, não sei se é possível dizer claramente onde nos situamos enquanto designers… afinal o que é um Designer? Afirmas, com razão, que os antepassados da nossa profissão eram os industriais (mas resolviam problemas?), os artistas (mas tinham um programa a cumprir?), os publicitários (estes não surgiram depois designers gráficos?). Mas não o foram também os arquitetos, os pintores, os escultores, os escritores, os engenheiros, os filósofos?…

    Tentando resumir as ideias de Bryan Lawson (que subscrevo totalmente), o Designer é alguém que faz uso de critérios específicos – num eixo que varia entre do artista puro e o legislador –, para resolver um problema num contexto de produção com constrangimentos específicos – num eixo que varia entre os constrangimentos simbólicos e os radicais –, impostos por si, ou pelos outros. Lawson não diz “do quê” se trata a atividade do Designer, mas liga-a à arte de uma forma geral (o próprio Lawson é Arquiteto).

    Creio que os Holandeses resolvem bem a questão denominando os designers como “vormgevers”. Por isso arrisco dizer que somos todos filhos bastardos de disciplinas artísticas (sim, dou o braço a torcer…), tecnológicas e sociais, de forma indissociável. Apenas varia o grau da influência de cada disciplina, manifestando-se nas criações (artísticas) de cada um. De forma mais prática, ou mais intelectual. Mais pragmática, ou (para infelicidade de muitos de nós) mais burocrática. Mais exploratória, ou mais científica. Isto faz com que a nossa atividade seja rica, variada e distingue-nos como designers em oposição a simples operacionais. Distingue-nos entre gráfico e produto. Entre industrial e multimédia. Entre muitas outras.

    Pessoalmente, gosto de pensar que tenho um bocadinho de tipógrafo no meio das atividades académicas, científicas, burocráticas e artísticas que tenho que fazer no dia-a-dia… No meio desta confusão de tarefas, continuo a identificar-me como um Designer.

    Por isso sim, concordo que a “viragem do ensino das artes” até está mais de acordo com a realidade burocrática do dia-a-dia de um Designer (qual quer que ela seja). Posso também não gostar (como me parece ser o tom do post). Mas aceito. Com alguma relutância, com muito pouca vontade, mas aceito. E tento fazer o melhor que consigo, enquanto Designer. Aliás, tenho verificado que a minha formação ajuda a resolver problemas e a melhorar a alguns processos de outras áreas.

    Em tom de nota final, nos últimos tempos, tenho dedicado muito tempo a observar o sentimento de propriedade (mal endereçado?) que os designers (gráficos como eu) têm em relação à palavra Design. Para já não falar na atividade em si. A realidade, como observas nos teus posts, é que esta atividade não tem uma origem clara das artes gráficas, pela qual (enquanto designers de comunicação ou gráficos) poderíamos exigir algum grau de exclusividade (tal como acontece com as ordens?).
    Nem tão pouco é uma atividade exclusiva de um grupo profissional. E vice-versa. Acho que está na altura de admitir que um cientista pode fazer Design e um Designer pode fazer investigação científica. A questão fundamental reside na relação entre qualidade dos resultados obtidos, face aos indicadores quantitativos tão privilegiados atualmente.

    Para o bem, ou para o mal, a sociedade mudou. Até que ponto (como Designers) podemos mudar também?

    • Pedro,

      Perigosa em que sentido? Porque está errada?

      Quanto à designação de industrial: era assim que Libânio da Silva era identificado repetidas vezes na publicação que lhe prestou homenagem nos anos cinquenta, por exemplo. Era assim que ele próprio designava os donos de gráficas no seu Manual. De modo geral, era esse o nome que assumiam oficialmente os donos de gráficas: Industriais gráficos.

      Se o Balsemão for dono de uma gráfica, não duvido que seja um destes industriais.

      Definir o designer como alguém que resolve problemas é demasiado vago para ser realmente útil em termos críticos ou históricos. Pode descrever um político, um médico ou qualquer profissional ou até amador. Mesmo enfatizando o lado formal, torna praticamente o design num sinónimo de pensamento, o que é útil para dar a entender que é universal e que sempre existiu, mas não serve de muito para perceber porque há agora designers, quando não os havia no século XVI. Pode-se sempre dizer que até havia qualquer coisa do género, mas isso será sempre e apenas uma analogia, considerando que o modo como este hipotético designer exercia a sua actividade era radicalmente diferente do actual. Pode-se sempre dizer que são só palavras e que já havia design, embora com outros nomes, mas isso não explica porque houve necessidade para a mudança de nome.

      Lendo um Manual de Tipografia do início do século XX – o de Libânio é um bom exemplo – percebe-se perfeitamente que não fala apenas da composição formal e da sua história, mas também do género de maquinaria usado ou da organização racional do trabalho na linha de montagem que é uma gráfica, especificando até a posição do corpo que os operários deveriam assumir para maximizar a sua produção, bem como a higiene no local de trabalho, matéria-prima, etc. Não era possível de todo separar o lado da execução formal da gestão de um processo industrial. Pode-se assumir que todo este enquadramento é irrelevante, conseguindo demonstrar assim que Libânio era na verdade um designer mais ou menos semelhante aos actuais. Mas a história constrói-se através destes enquadramentos técnicos, produtivos e institucionais.

  2. Mmh… ok, se na altura o próprio Libânio se considerava, ou o consideravam um industrial, não tenho nada contra. Aliás, só reforça a posição do final do meu comentário.

    Confesso que não sabia, e que faz todo o sentido (pensando agora nisso…). Por isso, peço desculpa. Mas a verdade é que se disseres “Libânio, o industrial”, ou “Libânio, o tipógrafo” é diferente, certo?

    Percebo o teu ponto de vista e resposta ao comentário. Concordo e ao mesmo tempo discordo de várias coisas.

    Primeiro, discordo do “definir o designer como alguém que resolve problemas é demasiado vago […] Pode descrever um político, um médico ou qualquer profissional ou até amador.”
    Porque não? Não se trata da própria definição e etimologia da palavra Design? Não existe atualmente a palavra aplicada noutras áreas?

    Concordo, porque se for sinónimo de pensamento apenas, é vago e generalista (a grande força e fraqueza da definição). Mas repara na nuance da definição do Lawson ao ligar o design a uma atividade de resolução de problemas num contexto de criação (eminentemente artística)… um médico não cria normalmente. Mas pode ser um Designer de um processo, ou instrumento da sua prática. Porque não? (o que nos leva à discussão do profissionalismo e qualidade, que me parece ser outra coisa diferente).

    “design num sinónimo de pensamento […] não serve de muito para perceber porque há agora designers, quando não os havia no século XVI”

    Tu próprio, no final do último comentário já chamas Libânio de Designer, enquanto alguém que resolve/otimiza um problema de gestão industrial. Na altura também não existia esta profissão e agora, para além de desempregados, há mestrados e doutoramentos em gestão. Mas nem por isso o chamas de um gestor, ou engenheiro (na minha opinião também definições válidas). Pela mesma razão, não chamas aos atuais designers industriais, ou gestores. Por isso me referia a uma posição perigosa (e não errada!).

    Apesar da palavra ou profissão não existir, o base estava presente. E esteve sempre presente. Aliás, já havia arquitetura antes de haver Arquitetura, certo? Os nomes aparecem depois das coisas (e da nossa compreensão das mesmas), e não antes.

    O Design foi uma maneira de definir uma atividade inserida num contexto de coisas novas, onde ainda hoje é impossível separar a execução formal da gestão industrial. Ou, noutras palavras, separar a técnica da… criatividade (se pudermos chamar-lhe assim).

    Tu próprio afirmas “um designer mais ou menos semelhante aos actuais”. Creio que o truque está no “mais ou menos” que tem sido a evolução. Libânio talvez fosse um industrial, mas não era um designer. Pelos padrões atuais, era um tipógrafo. afinal de contas, a Tipografia era sinónimo de um industria na altura de Libânio.

    E é aqui (que ao longo destas discussões nos artigos) tenho vindo a dar-te razão. Os Designers não descendem diretamente dos tipógrafos. Mas ao mesmo tempo acho que a(s) definição(ões) que empregas também não as mais adequadas na medida em que não se consegue precisar de onde descende a atividade. Até porque (como concordamos?) não descende diretamente de nenhuma profissão existente…

    O que aconteceu foi que o processo (de criação) industrial tornou-se mais complexo e compartimentado. O Designer apareceu ou redefiniu-se em passos específicos deste processo e passou a executar diferentes atividades. Implementou uma metodologia projetual para resolver problemas de criação (ouvindo a entrevista a Tim Brown, ou a Spiekermann no Design Matters creio que esta posição fica um pouco clara).

    Muito provavelmente, daqui a 50 anos, tal como Blokland afirmou na conferência do 2º Encontro Nacional de Tipografia (http://entipografia.web.ua.pt/), a profissão do Designer vai deixar de existir… e aí os futuros Designers o que vão ser? A palavra vai deixar de existir? Mesmo que seja feita por outras pessoas ou por máquinas, por Designers ou por Industriais, uma coisa é certa – alguém vai ter que continuar a definir, desenhar e implementar um processo de Design. Como vai ser encarada a origem da futura nova profissão?

    • Olá Pedro, olá Mário.

      Acho curiosa esta discussão da árvore genealógica do Design.

      A meu ver, esta pode estender-se até ao primeiro hominídeo que usou uma ferramenta, se formos tentar pensar no que é que o Guttenberg fazia e no que faziam os antepassados profissionais deste.

      No entanto, o Pedro chama à atenção do William Morris e, vejo eu, muito acertadamente: embora o design gráfico e o de produto venham de origens diferentes (rudemente, o gráfico do têxtil e da pintura e o industrial da arquitectura), acho que é na invenção da profissão que os dois convergiram.

      E esta invenção veio de uma necessidade. É interessante espreitar, no caso do gráfico, os Pré-Rafaelitas e alguns pintores da Arte Nova (como o Toulouse-Lautrec) e reflectir no porquê de recorrerem às artes aplicadas para responderem a pedidos que, originalmente, eram do domínio das tipografias.

      Também de notar, no caso do Morris, as premissas dos Pré-Rafaelitas quanto à rejeição da canonização académica da pintura, ou seja, da vontade de romper com esses cânones. O que distinguiu o Morris dos outros pintores da irmandade foi o de este se apoderar de outras praxis, como a tipografia ou a estampagem.

      Quanto ao industrial, é curioso olhar para a Bauhaus: não falava em design como profissão, falava antes nas artes estarem a responder a necessidades de produção industrial, de uma forma que pretendia evitar magoar a pintura, a arquitectura, a cenografia e por aí fora. No entanto, incentivava que todas estas áreas se cruzassem.

      Quer num, quer noutro, a necessidade de reprodutibilidade da peça criada salta sempre à vista; daí que o Design tenha surgido aliado ao conhecimento técnico industrial.

      Por isso, Pedro, não acredito que o Design, enquanto profissão, não vai desaparecer daqui a 50 anos. Não sei o que é que o Bookland entende por Design, mas a concepção simbólica e reprodutiva de um objecto é coisa que existe desde que cá pusemos os pés na Terra.

      Se vai mudar de nome, se vai mudar de entendimento no senso comum, não faço a mais pálida ideia: nem acho que o Bookland faça.

      Um abraço aos dois!

  3. P.S.: Peço desculpa pelo encadeado das ideias (ou da falta do mesmo), mas torna-se difícil discutir várias coisas ao mesmo tempo, quando não há tempo para deixar o texto amadurecer 😉

  4. […] Design Thinking e a abordagem da IDEO. A propósito da discussão há muito iniciada (continuada, e continuada…) no blog Ressabiator, esta é talvez a posição mais interessante na definição de um […]

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