The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Entrei numa realidade alternativa onde havia cultura em Portugal

Antes de começar propriamente, uma anedota: outro dia à hora do jantar cruzei-me com uma amiga  que se apressava para ir ao cinema. A maneira casual como disse isso, em plena baixa da cidade, sem indicar qual o filme ou o cinema a que ia causou-me uma estranheza geográfica que não consegui explicar por um momento, como se tivesse entrado de repente num universo paralelo: em Portugal, já praticamente só é possível estar atrasado daquela maneira na baixa de Lisboa. No Porto, em Coimbra ou Vila Real ir ao cinema já não é para mim uma coisa tão casual, nem tão cheia de possibilidades. Tirando as sessões esporádicas em sítios mais ou menos alternativos e os raros festivais, o cinema limita-se aos centros comerciais e às estreias das últimas semanas, pouco melhor que nada. Viver fora de Lisboa significa que a maioria do cinema e da sua história são consumidos através de um ecrã de televisão ou de computador.

Nem falo do romantismo de ver um filme numa tela, com as caras dos actores com metros de altura e paisagens panorâmicas a toda a largura da sala, mas do que se perde em comunidade, no acto físico de estar com um conjunto de pessoas numa sala em nome de um interesse comum – e num centro comercial esse interesse limita-se a ocupar aquelas duas horas, se não for com aquele filme, com outro qualquer. Vivendo no Porto já perdi isso e para mim um filme é só um “conteúdo” que vejo no mesmo ecrã onde leio as notícias e actualizo o blogue (já praticamente não vejo televisão que não seja através da internet). Perdi até o hábito de ir ao jornal ver que filmes estão no cinema.

Mas, ainda assim, gosto de cinema português e vejo-o sempre que possível no cinema. Vibro mais a ver um mau filme português do que um filme mediano de outro sítio qualquer, uma emoção que tem pouco a ver com o Cinema com C grande: gosto de ver ficção na minha língua em sítios que conheço. A ficção complexifica a nossa relação com realidade, dando-lhe dimensões alternativas, umas ao lado das outras. Não me é possível ir visitar os meus pais a Vila Real sem me lembrar que os personagens do Camilo andaram por ali ou que O Capacete Dourado foi filmado no mesmo liceu onde estudei, com motas pelos corredores e o Rogério Samora e a Alexandra Lencastre a fumarem na sala dos professores. Esta é uma sensação mais comum em Lisboa, uma cidade cinematográfica, onde cada cantinho já foi também um actor em dramas, comédias, etc.

Tudo isto para lembrar que não há uma política para o cinema em Portugal, tanto para o seu público como para os seus criadores, que enquanto demonstram a cada passo a sua excelência lá por fora – o único critério que acaba por interessar por aqui – são em geral abandonados à sua sorte até vencerem ou desistirem pelo caminho. No primeiro caso, aparece sempre o governito ou as instituiçõezitas a reclamarem o seu cantinho na fotografia, apesar do seu apoio se limitar cada vez mais a, na melhor das hipóteses, não serem um obstáculo. Não espanta que dado o abandono a que o cinema é votado em Portugal sejam os seus profissionais a lembrarem sempre que são premiados que não tiveram apoio nenhum por aqui. O cinema português ainda vai sendo um sucesso, nem tanto de investimento como de falta de investimento, considerando que com quase nada faz muito, mas chateia que se diga que esse abandono no fundo, no fundo até é para o bem dele

Trabalhar na cultura vai tornando quem o faz numa espécie de exilado interno, cada vez menos representado na discussão política e sobretudo nos orçamentos de Estado. Cortar na cultura torna-se difícil, dada a fatia infinitesimal que lhe é destinada dos nossos impostos, mas mesmo assim ainda fica bem dizer que se está a cortar nisso porque não é essencial, porque não é um emprego a sério, não põe o pão na mesa e há gente a passar fome, apesar de ser um emprego a sério e ser daquelas coisas que multiplica o sítio onde estamos e a maneira como estamos nele, tornando-nos cosmopolitas aqui mesmo e com o pouco que temos.

Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. Ana Farias diz:

    a propósito da dimensão colectiva do cinema, e dos “apoios” que são “não atrapalhar”: nas caldas há sessões com presença do realizador (quando dá) em que se chega, se come pão quente e sopa, se vê o filme, e se conversa https://www.facebook.com/cinemaseca

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