The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Tudo o que desce…

Este governo – como tantos outros antes dele, é verdade, mas nunca com tanta intensidade como este – não se cansa de pedir iniciativa, de exortar à coragem, de reprovar a pieguice, etc.

Propõe-se apoiar as iniciativas de sucesso que captem investimento privado, se possível estrangeiro, promovendo o país lá fora sem gastar dinheiro dos nossos impostos. Não sei se haverá melhor exemplo disto que o último filme de Miguel Gomes, financiado a 60% por privados nacionais, 40% por subsídios estatais estrangeiros e premiado num festival de renome. Mas qual é a política do governo para esta área? Cortar todos os apoios que impliquem mais do que mover os lábios, propagando pela atmosfera aquelas coisas a que se costuma chamar “treta”.

É claro que não chega a ser propriamente uma contradição, porque a imagem que o neoliberal faz de uma iniciativa de sucesso nunca será a de um projecto cultural, mas a de uma pequena e média empresa, com funcionários satisfeitos com o seu salariozito competitivo mas honrado, gente plenamente consciente da mobilidade laboral inerente às economias modernas – se este emprego os desiludir, serão eles próprios a despedirem o seu patrão, procurando uma alternativa melhor, mesmo em outra cidade ou país.

Até o salário mínimo é um obstáculo às suas carreiras, porque dificulta a criação de emprego: sacrificando um salário mínimo mantido artificialmente através de direitos adquiridos poder-se-iam criar três ou quatro empregos, tirando do desemprego outras tantas pessoas. Os trabalhadores com mais iniciativa poderiam até acumular dois ou três destes empregos, talvez em cidade distintas. Para uma família, as deslocações serão um fardo económico acrescido, mas que terá a virtude de disciplinar o seu consumo, limitando-o às suas possibilidades reais.

No caso do orçamento individual por alguma razão falhar, haverá sempre a possibilidade de apoio por parte da família, e a redução do apoio do estado servirá como incentivo ao reforço dos laços tradicionais de sangue, mas também do espírito de comunidade que tanto tem faltado.

Com o tempo, os rendimentos poderão ir aumentando, quando o fardo fiscal resultante do equilíbrio orçamental e da necessidade de pagar o nosso endividamento for aliviada. Para já, irá poupar as famílias mais pobres, mas também as empresas, que deste modo terão um incentivo à criação de mais postos de trabalho – porque uma economia saudável assenta sobretudo nas empresas. Mesmo o subsídio de desemprego deverá deixar de ser encarado como um direito gratuito assegurado pelos nossos impostos para ser visto como um incentivo às empresas sob a forma de um complemento do salário de trabalhadores, que de outro modo estariam inactivos em casa a serem pagos para não fazerem nada com o nosso dinheiro.

Muita gente concordará com tudo o que descrevi até agora. É esta a mensagem que nos é martelada a toda a hora e a todo o momento nos jornais e na televisão, sem que se apresentem os seus problemas mais óbvios ou as alternativas mais evidentes. Já nem devia ser preciso recordar as dificuldades das pessoas que não têm apoio das famílias ou da comunidade; de como uma família não se pode deslocar entre dois ou  três empregos quando o custo ou a própria existência de transportes vai piorando diariamente; de como o controle do consumo através da diminuição dos salários leva a que diminua a procura de produtos de consumo e, não havendo procura, não haverá necessidade para criar mais postos de trabalho; de como o subsídio de desemprego é uma forma de seguro pago pelos próprios trabalhadores, etc.

Aparentemente, como Victor Gaspar sublinhou na sua conferência da Londos School of Economics e como Passos lembrou numa conversa esta semana, a estratégia do governo depende da inversão do ciclo económico nacional e internacional. Até lá o desemprego irá aumentar. Mas a própria ideia de ciclo económico dá a entender normalidade, hábito, e não há quem diga por aí – muito convincentemente – que estamos numa crise sem precedentes? A estratégia do governo consiste em apertar o cinto e parar com a pieguice para sermos competitivos quando chegarem melhores tempos, mas e se eles não chegarem? Não seria preferível acudir à desgraça em que já estamos do que piorá-la em nome de um futuro que nunca chega a ser bem explicado?

Filed under: Design

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