The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ainda estou vivo

(Mas cheio de trabalho, com o começo do semestre, a conferência de hoje e uns tantos textos de longa duração em vários estados de conclusão).

Filed under: Notícias Breves

7 Responses

  1. Caro Mário: confesso que a última conferência me deixou um gosto amargo; acho que ficaram assuntos por clarificar e no final estava demasiado cansado para sugerir um diálogo. Por isso, ao ralenti, aqui fica: porque é que o design está obrigatoriamente remetido para uma atividade de tempos livres, uma diletância? porque é que a profissionalização o assusta tanto (e a muitos outros como a da semana passada com o Daniel Van Der velden na FBAUL). Porquê esta ideia instalada que os trabalhos para empresas e grandes corporações são necessariamente mais pobres e com menos camadas de significação?
    Há dezenas de trabalhos comerciais interessantíssimos, com níveis de significação e profundidade de mensagens muito superior aos exemplos que mostrou. Arrisco a dizer que há dezenas de marcas e campanhas portuguesas para o grande consumo que conseguem gerar um interesse visual e comunicacional muito superior às marginálias de auto-edição. Conhecendo (e tendo comprado) alguns livros da braço de ferro fico com a sensação que é um trabalho para viver em conferências. Sem vida social, afastado do público, incapazes de gerar sustentabilidade financeira que pagassem a sua vinda, estadia e alimentação em Lisboa para a conferência.O Wanda é um livro com textos pobres e o cuidado gráfico (bem como os pintelhos) não chegam para o transformar numa edição entusiasmante. Uso este exemplo porque foi o seu, mas não quero de forma nenhuma que passe a ideia que desvalorizo a braço de ferrro de quem já comprei estas e outras edições.
    A ideia que passou (ou foi uma deficiente leitura minha?) que o design é uma atividade que decorre acessoriamente a outras, livre de constrangimentos financeiros ou de encomendadores, e que delas se alimenta – um dandysmo gráfico – desvaloriza a profissão e remete-a para o estatudo de hobby. O designer, como o engenheiro ou o dentista podem ter uma preocupação em intervir nos assuntos sociais, económicos, ecológicos, técnico-científicos, ou poéticos da vida; mas ao fazê-lo não estão a fazer design, tal como o escritor formado em psiquiatria não a exerce quando escreve um romance. É uma ideia tão cara ao fascismo onde as atividades criativas eram um passatempo depois de um bom dia de trabalho. A ideia de um actor profissional, um escritor que vivesse da literatura eram ideias tontas e ironicamente parece ser para aqui que algum ensino parece querer voltar.

    • No fim de contas, o problema que coloca é eu ter escolhido o tema e os exemplos que escolhi.

      Estas não são exactamente conferências sobre design mas sobre livros (é o título delas) e sobre aquilo que chamo a edição experimental contemporânea, procurando circunscrever as suas características – quem a faz, como e porquê; diferenças e semelhanças em relação a outros modelos de edição ao longo da história; qual a ligação entre este novos modelos de edição e distribuição e o contexto político actual.

      Em cada uma destas conferências falo dos objectos e criadores pertinentes ao tema escolhido. Já falei e escrevi em outras ocasiões do design empresarial ou comercial que considero mais interessante – o que outras pessoas acham interessante é com elas.

      Quanto a eu defender (ou não) a cultura ou até o design exercido nos tempos livres, já respondi a isso em outras ocasiões:

      https://ressabiator.wordpress.com/2007/11/30/dois-empregos-ou-mais/
      https://ressabiator.wordpress.com/2008/02/03/a-cena-independente-do-porto-ou-a-comunidade-enquanto-mercadoria/
      https://ressabiator.wordpress.com/2008/02/07/cultural-marginal/
      etc.

      Finalmente não se trata de medo do profissionalismo, porque tanto eu como a maioria das pessoas que citei na conferência têm uma ou duas profissões (penso que isso foi referido). Eu próprio dou aulas e escrevo sobre design. Não faço design gráfico prático porque levo a sério a docência que acredito ser incompatível com actividades empresariais – tanto eticamente como em termos simples de compatibilidade de horários. Mas o Pedro Nora que fez parte da Braço de Ferro trabalha regularmente para a Culturgest, para Serralves bem como para muitos outros clientes. O Stuart Bailey ou o Will Holder trabalham como designers. Etc. Tudo isto é design profissional e não duvido que muito designer empresarial não gostasse de trabalhar para este género de cliente.

      Na minha opinião o problema é acreditar-se que o design só é profissional (ou seja: sério e não um hobby) quando é exercido para empresas e grandes corporações e não no contexto cultural por exemplo, uma ideia bastante comum que deriva provavelmente da ambição pragmática por parte de muitos designers poderem trabalhar para todo o género de clientes sem grande esforço, fazendo um rótulo de vinho alentejano na terça, o catálogo para uma retrospectiva da Tacita Dean na quarta, a identidade gráfica de uma multinacional de seguros na quinta e uma colecção de literatura clássica na sexta.

  2. Caro Mário, gostei bastante dos exemplos que escolheu e a minha questão não se focava neles (lamento se dei essa impressão). Questionei o pré-conceito (que aborda no final da sua resposta) sobre as castas dos designers.

    Continuarei a assistir às suas conferências porque valorizo o seu olhar atento e uma leitura observadora e reflectida que me interessa. Vi na dot dot dot pormenores interessantes que não tinha conseguido identificar primeiramente (talvez porque já desenhei sinalização para um parque de estacionamento).

    Ainda não consegui mudar de ideias sobre o trabalho do Stuart Bailey com a dot dot dot: comprei três edições e desisti porque as achei demasiado ligeiras e com um modus fazendum cultural irritante. Por vezes demasiado simplistas, muitas vezes demasiado autorreferenciadas. Gostei das observações que apresentou nesta conferência e espero mudar de ideias na que lhe dedicará.

    Na final da sua resposta reside uma ideia que me interessa rebater: a que há uma elite de designers, que usa processos muito próximos dos artísticos e que está mais bem preparada para lidar com o “contexto cultural” (uma expressão atulhada de preconceitos). Se bem entendo o que diz é necessário uma purga comercial, uma afastamento das questões do consumo, a pertença a um “mundo da arte” aqui usado na acepção analítica e pragmática (de Stolnitz, Danto, Goodman) para se poder trabalhar com o tal “contexto cultural”. Um designer que na segunda desenhou um rótulo para o pingo-doce não o conseguirá fazer porque não bebe do meio que gerará a profundidade de significações. Se esta minha leitura está correta discordo totalmente.

    É mais um regresso a um passado, em que o “pedigree” das boas famílias (que dava acesso ao “contexto cultural) é trocado pela ideia dos designes amigos de artistas (e eles próprios criadores), um elite melhor preparada para os representar. De facto não percebo como é que um designer não pode desenhar um rótulo de vinho na segunda e três segundas depois o programa para uma peça da Angélica Liddell e quatro semanas depois pode estar a desenhar a identidade para uma empresa de cofragens de Leiria. Que não se pode trabalhar como canalizador e condutor de táxi e ao mesmo tempo escrever música interessante.

    Não partilho dos seus pré-conceitos sobre uma necessidade de pureza artística, da contaminação das “empresas e grandes corporações” que embutem o cérebro do designer e o transformam num incapaz de lidar, conhecer e tratar a capa de um disco do Lachenmann, depois de ter desenhado uma embalagem de um pente para matar piolhos.

    “Não é a cola que faz a colagem” dizia o Max Ernst mas o Mário diz-me o contrário.

    Sendo assim insisto que é o Mário que tapa o caminho da profissionalização e que assume uma série de pré-conceitos que me parecem errados: quando se quer trabalhar para contextos culturais, somos obrigados a achar modos de financiamento mais “puros” ou não conspurcados pelas “empresas e grandes corporações”, de forma a construir um caminho de ascese (ou pelo menos muito Lux) junto dos legitimadores do mundo da arte.

    • Caro Gonçalo,

      O que eu pretendia dizer no fim da minha resposta (cheguei a escrevê-lo mas apaguei-o porque me pareceu óbvio) é que dada a quantidade de designers existentes e a sua circulação internacional já não é tão fácil a existência de designers generalistas como o era há uns anos – ou seja, já começa a compensar uma certa especialização por área ou por tema, sendo a cultura uma dessas áreas ou temas.* A elite, a purga e o preconceito são palavras suas, não minhas.

      (Se defendo a cultura é porque, consultando uns tantos jornais, revistas ou orçamentos de estado portugueses, não me parece que falte gente a defender as empresas e o empreendedorismo, considerando no processo que a cultura é um passatempo ocioso destinado a elites e que deveria portanto ser cortado, se possível de modo definitivo. Ou seja se o empreendedorismo não está a dar certo ou se as empresas precisam de defesa, não é propriamente por falta de gente e de recursos a defendê-lo.)

  3. NOTA DE RODAPÉ: eu faço design de comunicação e levo a sério a docência que não acredito ser incompatível com actividades empresariais, muito pelo contrário. Mas este é outro tema que requer outra argumentação.

  4. O “contexto cultural” também é um meio de afirmação de poderes. Por vezes tem uma atuação agressiva socialmente e com uma enorme sede de poder e penetração social (poder); está profundamente ligado ao poder económico. As suas conferências decorrem num banco, e se tenho o prazer de o ir ouvir é porque um banco o paga.
    Serralves expôs na Assembleia da República…

    • As oposições que estabelece entre cultura e poder mais uma vez são suas e não minhas.*

      *A minha tese de doutoramento e boa parte do que escrevo baseia-se nas metodologias de Foucault, das quais é parte importante o conceito de conhecimento/poder ou seja que os dois são essencialmente o mesmo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: