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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Competição

Dizer que o design é uma actividade competitiva não é propriamente uma novidade, mas duvido que a maioria dos designers se tenha dedicado realmente a perceber quais as características dessa competição. Ora, de acordo com os nossos amigos economistas, há vários modelos possíveis de competição, com estruturas muito distintas: a competição perfeita, a competição monopolista e os monopólios ou oligopólios.*

Na competição perfeita, temos um grande número de firmas que vendem produtos que para um consumidor não se distinguem entre si, uma matéria prima como a farinha ou o alumínio, por exemplo. Neste caso, nenhum produtor controla o mercado o suficiente para que o preço que cobra afecte o preço de mercado, fazendo-o subir ou descer.

No monopólio – o controle do mercado por uma firma – ou oligopólio – por várias firmas –, temos empresas que são as únicas a venderem um produto e que portanto podem, pela quantidade que decidem vender, controlar o preço de mercado (o petróleo ou o comércio de diamantes são exemplos clássicos). Naturalmente, para isto acontecer só pode haver um número pequeno de empresas a administrarem um bem escasso por natureza (por ser raro ou difícil de produzir) ou por limite legal (imposto pelo Estado). Assim, enquanto na competição perfeita cada produtor é “obrigado” a aceitar o preço de mercado, neste último caso são os produtores que decidem o preço de mercado.

Finalmente, temos a competição monopolista* dentro da qual um grupo grande de empresas competem umas com as outras vendendo produtos de um mesmo género, que são intercabiáveis entre si mas que aos olhos dos consumidores são distintos. A diferença pode ser a que existe entre um restaurante japonês e um balcão de fast food; a que existe entre uma loja de roupa numa boa localização e uma por onde raramente passa gente; a que existe entre um produto de marca e um genérico. Neste caso, os produtores têm algum controle sobre o preço que depende da maneira como conseguem apresentar o seu produto ao consumidor como algo diferente e desejável.

Muito do que os designers, publicitários e marketeers fazem é criar esta diferença e este desejo, mas a própria competição entre firmas de design obedece também – e claramente – ao modelo da competição monopolista. Ou seja, o preço cobrado por uma firma depende apenas da diferenciação que consegue apresentar em relação a outras firmas e este preço não afecta só por si o preço de mercado. Naturalmente, há vantagens para as firmas em apresentarem informação aos clientes que lhes permita valorizarem-se e tal acontece sob a forma de publicidade, portfolios, galardões, críticas positivas, participação em conferências, etc.

No entanto, há sempre a tentação de tornar esta competição num oligopólio que permitiria aos designers colectivamente estabelecerem um preço para o design (através de uma Ordem por exemplo), impedindo a concorrência de fazer preços mais baratos, mas seria difícil fazê-lo por uma série de razões (no caso do design gráfico, por exemplo, não é possível controlar de todo a sua produção mesmo que se limite a definição de design gráfico a objectos produzidos acima de uma determinada tiragem, numa gráfica, por licenciados, etc.) Mas a razão mais importante será talvez a própria natureza diferenciadora do design como serviço, cuja razão de ser é criar diferenças para além do preço, cuja função é potenciar a competição monopolista, e portanto obedece ele mesmo a este modelo.

Contudo, pode-se argumentar que certo design obedece mais ao modelo de competição perfeita. Falo do design de expediente, o secretariado gráfico feito em início de carreira por estagiários ou por designers trabalhando dentro de empresas ligadas ou não ao design, neste caso não há praticamente nenhuma diferença entre um e outro profissional excepto a eficiência a cumprir uma tarefa. Neste caso, os designers são obrigados a aceitar o preço de mercado e a sua expectativa de lucro é baixa. A única maneira de aumentar o seu valor será estabelecerem uma diferença em relação aos seus colegas, pela eficiência, qualidade, originalidade, visibilidade, etc.

*Que são modelos distintos mas neste caso serão considerados em conjunto.

**Que a curto prazo se comporta como um monopólio e a longo como competição perfeita.

Update: E, já agora, só para barrar melhor a manteiga.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

One Response

  1. Prezado diz:

    Artigo interessante, gostei.
    Acho que como noutros sectores neste país, concorrência ou competição é muito pouca. Encaixa tudo, parece-me, na competição monopolista. Aparentemente há competição, mas pelo que vejo, é a um nível o mais redutor possível: é estar dentro ou fora do mercado. no mercado de agências, os valores praticados são mais ou menos iguais, e só um profissional muito destacado dos restantes é que poderá negociar um valor individualmente. Os outros, são tratados como uma massa uniforme: nem boa nem má, cumpre.

    A minha teoria é que isto acontece porque somos poucos. Será só isso?

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