The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Respeito

É palpável a falta de paciência e confiança crescentes na nossa sociedade, principalmente na maneira como qualquer pequena gafe vinda da boca de um político, qualquer contradição no modo como actua, é impiedosamente dissecada. Se um político aconselha a emigração, queixa da sua reforma milionária, acusa a população de pieguice, já devia saber que vai apanhar publicamente no pêlo. Por um lado, a culpa é da maneira como se vai fazendo política, cada vez mais desligada da realidade. Num país em que um quarto da população anda perto do limiar da pobreza, onde a desigualdade já de si grande tem crescido com a resposta à crise, sentenciar que a população andou – e anda – a viver acima dos seus meios e que sofre de pieguice, é de um mau gosto que já começa a ser arriscado, que evidencia mais do que uma falta de respeito, sublinha um preconceito contra os próprios portugueses. Mesmo as tentativas de empatizar com a população (Cavaco, sobretudo) são de uma condescendência difícil de aguentar.

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Sacríficos? Depende

Um dos grandes problemas da discussão política dos últimos anos é um certo extremismo discreto, quase inodoro, mas certamente nocivo. Por exemplo, já não se pode defender simplesmente uma economia de mercado: ou se é neo-liberal ou um perigoso comunista. Não há meio termo, e não apenas entre os americanos mais conservadores – por aqui é a mesma coisa. Por exemplo, para pagar a nossa dívida, não nos basta ser poupados e rigorosos: precisamos de ser Austeros (o que não é bem o mesmo, porque implica todo um programa político de privatizações, desmantelando o Estado Social, protegendo mais as empresas do que os trabalhadores, etc.) Quem critica a austeridade é assim um piegas, que não está disposto a sacrificar-se pelo bem da nação, menos do que um cobarde, um miserável sorna. Na verdade, calculo que muita gente estaria disposta a fazer sacrifícios, mas não pelo neo-liberalismo.

Muito obviamente a crise é só uma desculpa para nos fazerem engolir todas essas tretas. Onde quer que sejam aplicadas é sempre preciso uma desculpa qualquer, ninguém as defenderia porque fazem sentido ético, social ou até económico (sobretudo depois de 2008): nos Estados Unidos defendiam que o neo-liberalismo iria tornar a sociedade mais justa, livre, no fim ficaram com uma crise gigante, desemprego e uma desigualdade e imobilidade social extrema. Na Inglaterra, está-se a experimentar a receita só porque é fixe; o desemprego já aumentou a economia contraiu.  Em Portugal, até há quem defenda que se pode justificar um investimento por parte do Estado durante uma crise mas apenas por países que o possam fazer,  como os Estados Unidos e a Inglaterra; por aqui estamos condenados a ser austeros – o que é irónico: a austeridade empobrece quem tem dinheiro para a experimentar, mas supostamente enriqueceria quem não o tem.

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Autoridade

Segundo o Público, o designer Sérgio Alves, de 22 anos, ganhou o Graphis Gold Award na categoria poster anual. Está de parabéns como é evidente, mas a cobertura jornalística deixa a desejar: entrevista-se e fotografa-se o designer mas nem se percebe sequer se o poster é mostrado – se calhar está ali naquele livro aberto numa das fotos.

Não é nem a primeira nem a segunda vez que, no caso de jovens designers quase desconhecidos, se mostra mais o atelier e o designer do que o seu trabalho – há uns tempos fizeram a mesma coisa aos Bolos Quentes. Mas nem sequer acho que seja um problema só do design. Nas artes e nos livros tem que se meter uma foto do autor em qualquer lado. Até no caso do Roland Barthes – o tal da Morte do Autor – arranjaram maneira de lhe pôr o retrato na capa de todos os livros. Pessoalmente vejo isso como mais um indício da maneira como se dá por aqui mais valor à autoridade de uma pessoa, o reconhecimento ou legitimidade que tem ou não tem, do que àquilo que faz ou diz:

– Este logo é tão mau!

– Mas olhe que é do Sebastião Rodrigues…

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Nota a mim mesmo

Pelo que consigo perceber, há duas maneiras de “compor” as economias periféricas em relação ao resto da Europa: através da inflação ou da desvalorização interna. Tanto uma como outra são dolorosas, mas enquanto a primeira é “económica” (os preços aumentam em função da quantidade de moeda em circulação diminuindo o valor dos salários no mesmo passo), a desvalorização interna é “política”: se não se pode produzir mais moeda é preciso cortar directamente os salários através de legislação e acordos. Ou seja: o processo imposto pela Troika implica a imposição de uma política social interna, atritos laborais e, se algum dia a coisa melhorar, fica-se preso à legislação que nos foi imposta, sendo necessário renegociar tudo caso a caso para voltar ao que se tinha dantes. Assim, a escolha que a Europa não nos permite é entre uma inflação que nos deixaria a nossa legislação mais ou menos intacta e uma desvalorização que implica a perda legal de direitos e, no caso mais extremo, o neo-liberalismo.

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Passou-se

Ainda deve haver gente que aplaude quando o nosso Primeiro Ministro diz aos portugueses para serem mais exigentes e menos piegas, mas não consigo perceber como. Comparado com os sacrifícios que nos pedem em nome do pagamento de uma dívida que decorre em larga medida de más políticas europeias, não chega sequer a ser um insulto, apenas mais um indicador da prepotência de quem nos governa, do desprezo cada vez mais autoritário por aqueles a quem representa.

Já nem uso o argumento da coerência, porque não há, como é óbvio, gente mais complacente, menos exigente e piegas do que o nosso governo, cujas políticas económicas austeritárias são cada vez mais vistas como perniciosas pelos próprios mercados – mas que interessa isso, desde que se ponha o país todo a dançar ao som do realejo para mostrar como somos disciplinados às Damas e Cavalheiros da Europa. Pode ser que caia uma moeda.

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Grossura é Formosura

Não é que fosse muito difícil encontrá-lo: metade dos alfarrabistas de Lisboa deve ter um. A dificuldade foi apanhar A Antologia do Humor Português por um bom preço. É um livro quase culinário no seu excesso: pouco mais de mil páginas de papel espesso, em várias tonalidades, quase dez centímetros de lombada ao todo. Pousado sobre a mesa tem o ar de uma grande fatia de queijo que por qualquer razão foi cortada em rectângulo. Foi editado em 1969 pela Afrodite, um bom nome para uma editora do tempo em que os livros portugueses conseguiam ser escandalosamente atraentes. Este tem capa e paginação de Sena da Silva, e ilustrações de Carlos Ferreiro, Eduardo Batarda, João Machado e José Rodrigues, junto a cada ilustração identificados apenas pelo apelido, como se fosse uma legenda.

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Todos os putos fixes têm um

Pelos vistos, um dos argumentos de peso da direita portuguesa é que a esquerda passou de moda. Basta ver um sindicalista ou um bloquista a participarem num debate televisivo: podem argumentar com todas as estatísticas, com toda a legislação; podem até invocar precedentes históricos ou fazer analogias com outros países em situação semelhante à nossa. Não há nada que os possa safar. Basta o seu interlocutor entortar um sorrizito condescendente e com os olhos meio revirados perguntar se ainda faz sentido em pleno século XXI usar palavras como “exploração” ou “greve”. Nem é preciso dizer mais nada.

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A Maior Depressão

Pelos vistos, a nossa Depressão anda a correr há mais tempo do que a original de 1929. Houve outras, é claro, mas essa há-de ser sempre a importante, com as consequências que teve – a Segunda Grande Guerra e tudo o mais. Uma das novidades da nossa é o protagonismo que Portugal está a ter, que nos colocou finalmente no mapa, nas conversas de toda a gente. Calculo que nos próximos anos se lembrem do nós como uma versão económica do assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, um evento que incompreensivelmente levaria à matança de milhões nas trincheiras. Na altura como agora, a desgraça aconteceu por causa de toda uma rede de alianças e tratados políticos que tornavam inevitável a catástrofe. Espero que no futuro também vejam a nossa situação como igualmente estúpida. A nível interno espero que se lembrem da convicção dos nossos políticos e economistas que as pessoas que governavam viviam irresponsavelmente acima dos seus meios, o que cada vez mais significa que, irresponsavelmente, tinham saúde, educação, água e luz barata e ao pé de casa. Tem-se falado da importância de ter uma perspectiva positiva disto tudo, mas sinceramente, já só queria que alguém aprendesse alguma coisa com todas estas asneiras e contradições. Mas duvido.

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Cortar a Fita

E é claro que se comemoram os cem anos do turismo em Portugal, não sei exactamente com que critério, tendo em conta que Lord Byron, por exemplo, já se tinha dedicado a ir a Sintra quase cem anos antes e tinha ficado num hotel, supostamente o primeiro do género em Portugal, aberto a meio do século XVIII. Andava ele a fazer a “Grand Tour“. Não seria ainda um “Tourista”, um consumidor da indústria organizada da viagem de lazer, mas Mark Twain que teria passado por cá em meados do século XIX já pertencia – contrariado e sarcástico, é verdade – a esse público alvo.

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Plano Pessoal de Leitura

Nesta altura, com as avaliações e o começo daquilo que chamo a época alta, aquela estação do ano em que as gentes que se dedicam à cultura, às artes e ao ensino em geral começam a pedir textos, conferências ou papelada.

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Dia da Marmota! Dia da Marmota!

Quase que deixava passar a ocasião de comemorar um dos meus filmes mais favoritos de sempre, se não fosse por esta manchete – pelos vistos já nem as marmotas conseguem estar de acordo. Na foto, e só para ser original, o outro filme em que Bill Murray contracena com uma marmota.

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Ensino por Convite

A quantidade de cadeiras e tarefas distintas que um professor é obrigado a cumprir actualmente faz com que muitas disciplinas sejam dadas por comissariado, convidando alguém diferente para dar cada uma das aulas, argumentando que os alunos até ficam a ganhar com as diferentes experiências, etc.

Nunca gostei deste expediente, nem como aluno, nem como professor, especialmente nos mestrados e doutoramentos.

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Missão

De vez em quando encontro alguém que me diz que o blogue está mais politizado e que ando a escrever menos sobre design. Na verdade, não: nos velhos tempos, escrevia um ou dois textos por semana, uns dez por mês; agora escrevo uns sessenta. Escrevo agora muito mais sobre design mas – reconheço – muito mais sobre outras coisas, sejam elas política, arquitectura, arte, literatura, opinião, etc. Não é que o design se tenha tornado menos importante, mas porque numa época como esta é preciso resistir à especialização dos discursos, que no fundo é uma maneira de manter tudo no seu devido lugar.

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Coleccionador de Fascículos

Quem foi à minha última conferência na Culturgest sabe que ando bastante interessado no modo como diferentes concepções da economia se reflectem tanto na distribuição de publicações como no seu aspecto gráfico.

Hoje em dia, as pessoas compram objectos de uma vez só e pagam-nos depois em prestações; em outros tempos, mais avessos à dívida, os objectos eram comprados às partes, aos pedaços. Uma revista era coleccionada e acumulava-se lentamente até ser promovida por um encadernador ao estatuto de livro. A numeração de página e os seus índices já previam esse estatuto.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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