The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Coisas que passam

Com o aumento de pós-graduações e investigação avulsa, nunca houve tanta gente a escrever no design português, mas os efeitos são escassos.

Há congressos, apresentações públicas, publicações que as instituições se esforçam por divulgar, que até são citadas e reproduzidas em outros congressos, apresentações e publicações, mas é difícil perceber se há ideias, tendências ou até polémicas – boa parte das comunicações responde a problemas de pormenor, propondo uma nova maneira de classificar qualquer coisa, fontes, cartazes ou paginações, ou então descreve a obra de um designer ou artista desconhecido. Alcança-se um grau ou cumprem-se os requisitos de progressão na carreira mas pouco mais do que isso. A sensação é de vazio, um vazio cheio de prazos e pressas mas ainda assim um vazio.

E uma parte do que falta – não consigo dizê-lo de outra maneira – é beleza. Não se pode reduzir o design a uma ciência exacta ou sequer uma ciência; não se pode reduzir o discurso sobre o design a relatórios e a folhas de cálculo. Pode-se argumentar que os gostos não se discutem, mas isso é apenas um chavão para evitar falar do elefante na sala: que a maioria das apresentações e papers são eles próprios maus trabalhos de design, que a boa parte das publicações falta graça e estilo.

Já me cansa que se fale sempre de funcionalidade, comunicação e inovação e se negue que o design é uma coisa de modas, de tendências que passam – mesmo dentro do modernismo houve tiques e estilos, aquilo que se fazia em Ulm não era bem o que se fazia em Inglaterra, no Brasil ou em Itália.

Se a moda aparece numa comunicação ou num congresso é em geral como um mau exemplo, uma anomalia a resolver – a frivolidade não é, nem pode ser, científica e o que se fazia no passado era uma coisa tosca e provisória a caminho do presente onde estamos finalmente (finalmente) a fazer a coisa certa, definitiva.

O design gráfico, de equipamento ou de produto sempre lidou mal com o seu carácter transitório, por comparação com o de moda, onde a mudança é sazonal e esperada. E agora nesta nova moda de pensar o design como se fosse uma ciência, vai-se insistindo numa inovação onde estranhamente o estilo fica de fora.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: