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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Avesso do Público

Hoje o Público mudou de grafismo. Tal como já tinha escrito por aqui, o regresso a este termo, deixando em segundo plano o design, parece-me uma escolha programática, enfatizando uma preocupação maior com conteúdos, com o comentário, mais do que pela simples notícia que neste momento vai chegar sempre atrasada em relação ao que se pode ler na internet (Rui Tavares, na sua crónica, faz uma boa proposta do que poderão ser as funções de um jornal nestas novas condições).

Assim temos um jornal mais pequeno, no máximo com três textos por cada dupla página – em geral menos. Os artigos tornam-se visivelmente maiores, dando a sensação de menos imagem e design em relação ao modelo anterior (comparado com o qual parece quase uma revista literária).

A edição deste primeiro número foi dada ao filósofo José Gil que o dedicou àquilo que não se sabe – à falta de informação, de conhecimento e da própria capacidade de alcançar um e outro. Assim, o tema deste Público é – curiosamente – aquilo que não é público, um debate que pode parecer pouco pragmático mas é essencial em Portugal, onde a censura teve um papel central durante longos períodos, e cujas instituições, tradições e hábitos foram sendo construídos em torno de uma delimitação sistemática, administrativa, do que pode ou não ser público.

Quando se fala, como Gil, de um país voltado do avesso, sente-se de imediato que este reverso é provavelmente bastante maior que o “direito”, e que não há tecnologias, instituições ou até vocabulário para ir tentando inverter a situação.

Por curiosidade, num livro de introdução à economia escrito por Paul Krugman (de 2009) que tenho andado a ler, usa-se Portugal durante o 25 de Abril como um exemplo da importância e da dificuldade de reunir informação sobre a qual se possa tomar decisões económicas e políticas. Já tinha apanhado uma e outra vez comentários de Krugman sobre a dificuldade de perceber a situação portuguesa, que foram interpretados como negligência por parte do economista, quando se tratava apenas da descrição de um contexto que resiste a dar-se a conhecer de maneiras que não encaixem “no que toda a gente sabe” e naquelas “situações que se conhece bem” – um contexto que nos condena à falta de informação é um contexto que nos obriga a tomar toda e qualquer decisão (desde comprar um carro a votar) às cegas – que é como quem diz, de acordo com aquilo que pensamos saber sobre o assunto antes de o conhecer realmente (ou seja, por preconceito).

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Filed under: censura, Crítica, Cultura, Design, Política, Publicações

One Response

  1. João A. Costa diz:

    Caro Mário,

    Como sempre um artigo muito interessante. O Público, mais uma vez, não aproveitou o facto de ter mudado o grafismo para refrescar o jornal e tornar o jornal mais dinâmico. Pelo contrário tornou tudo mais aborrecido. Arrisco a dizer que próximo do Jornal de Letras (não que este seja aborrecido mas mais enfadonho a nível gráfico). Esta era uma boa oportunidade para olhar para referências como o Guardian que recentemente fez uma remodelação com bastante sucesso e aceitação, não apenas a nível físico mas também digital.

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