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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A legitimidade

Quando estava nos últimos anos do curso de design, lá para a segunda metade da década de noventa, não me lembro de ter ouvido falar de muitos mestrados na área. Soube de um por volta de 98, que tinha aberto um ano antes e que viria a frequentar.

Doutoramentos na área do design ou das artes também eram uma novidade. Só algum tempo depois (não sei exactamente quando) comecei a reparar nos primeiros doutorados. Não espanta a demora, porque tanto os mestrados como os doutoramentos eram processos arrastados que podiam levar, no caso destes últimos, quase uma década.

Desde essa altura, a coisa agilizou. As licenciaturas foram reduzidas a três anos, os mestrados a um ou dois, os doutoramentos a três – oito anos ao todo, quase o equivalente a um dos velhos doutoramentos. A carreira de um artista, de um designer, de um médico ou advogado deveria ser normalizada numa estrutura tipo, cujos resultados seriam medidos numa espécie de unidade monetária a que se chama crédito e que é muito literalmente uma medida de tempo de trabalho em horas, ponderada por uma avaliação de desempenho, modelando assim o ensino superior num mercado muito literal.

Entretanto, e porque a simples produção de cultura não bastava para as estatísticas de inovação e qualificação, foi-se apelidando a investigação académica em – e não sobre – arte ou design como científica, simplesmente porque se encaixava na mesma estrutura administrativa das ciências exactas. Como seria de esperar, o resultado tem toda a pompa da ciência, mas muito poucos dos seus pressupostos, mesmo os mais básicos – o que não espanta muito, vindo de uma comunidade que encrava com indignação e aos magotes no pensamento metódico exigido pela Geometria Descritiva ou pelo Web Desgn mais básico (e qualquer uma destas modalidades já é uma versão de coisas bem mais complicadas, simplificadas aqui para tótós o uso de almas sensíveis, daquelas não gostavam de física ou matemática no secundário).

Tudo isto foi um processo rápido que foi aplicado com voluntarismo mas sem demasiado pensamento. Fez-se como tudo na vida portuguesa: porque nos disseram para fazê-lo. Podia-se até debatê-lo, desde que acabássemos por o cumprir dentro do prazo.

No final, já me habituei a ouvir em discursos inaugurais que a investigação em arte ou design tem finalmente a sua legitimidade, agora que obedece a modelos científicos mas, num país onde o ensino superior das artes é tutelado por ministérios e fundações da ciência e da tecnologia, não me parece que seja uma grande legitimidade – apenas o direito de nos camuflarmos de coisas tidas como mais sérias do que nós para sobreviver.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

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