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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

País Comprimido

Desde que me lembro, sempre houve menos informação em Portugal do que devia haver, mas com a crise o país tem perdido definição como um jpg que foi guardado demasiadas vezes, começando a ficar com os pixeis esborratados e acumulando junto dos contornos aqueles torvelinhos geométricos que os engenheiros chamam “artefactos”.

Essa falta crescente de definição, essa compressão, aplica-se aos serviços, centros de saúde, esquadras e escolas por exemplo, que vão sendo fundidos progressivamente, até se ficar com uma grande instituição central a transbordar de gente que vem um pouco de todo o lado em transportes e estradas cada vez mais caros.* Aplica-se também à cultura que, prolongando a analogia, poderia ser a qualidade estética da imagem do país, cada vez mais fanhosa.

Poder-se-ia argumentar que estamos em crise, que é preciso apertar o cinto, comprimir, mas há formatos de comprimir que não perdem informação (o tiff por exemplo) e os que perdem (como o gif ou o jpg). Para comprimir bem uma imagem convém adequar a compressão ao género de imagem: o jpg adequa-se melhor aos meios tons de uma imagem fotográfica, enquanto o gif funciona melhor em desenhos com grandes superfícies de cor plana com contornos definidos (o “p” de jpg significa “photograph” e o “g” de gif significa “graphic”). Para comprimir um país seria necessário saber alguma coisa sobre ele, mas esse conhecimento continua a ser anedótico, tanto no sentido de hilariante como no sentido com que o termo é aplicado dentro do discurso científico, significando uma informação que não é generalizável.

A falta de informação não acontece apenas ao nível do governo mas é quotidiana. Toda a gente a pratica alegremente. No dia-a-dia, reformas substanciais são regularmente justificadas por uma conversa de corredor um inquérito informal de validade duvidosa; vão para a frente mais graças à personalidade ou contactos de quem as propõe do que pela probabilidade de funcionarem; se falham, tirar conclusões é praticamente impossível porque a solução habitual é recomeçar a coisa, apagar o disco e voltar a reinstalar o sistema. E como de costume não se sabe por onde anda o back-up.

Quanto mais bem sucedida a sociedade, mais é a informação que circula. Não apenas dinheiro, conforme se julga habitualmente, mas simplesmente informação: desde mais jornais e revistas até uma maior diversidade de sítios onde comer ou ver um filme, desde os mais baratos até aos mais exóticos passando pelos mais informais, num ecossistema que é constantemente comentado, reavaliado e renovado.

Já alguém disse que informação é toda a diferença que faz diferença e esta informação toda faz diferença, torna as coisas mais rápidas e mais competitivas. Nas cidades e países mais fervilhantes, a própria realidade física já não suporta tanta informação, ao ponto de esta passar a um nível quântico, começando a produzir versões alternativas de si mesma – Nova Iorque com dirigíveis, a Londres fantástica de Mieville, Moorcock ou Sinclair.

*Uma instituição que se parece cada vez mais com Lisboa, a última etapa antes de abandonar de vez a “Zona de Conforto”, uma boa designação Orwelliana (ou pelo menos irónica) para o país.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. Luís M. Inácio diz:

    Olá Mário!
    Este é um post interessante. Realmente parece ‘faltar’ informação nas decisões no nosso país (e acrescento eu, no nosso dia-a-dia).
    Contudo, quando Bateson defendeu que a informação é uma diferença que faz a diferença, ele esqueceu-se de uma coisa. A de que a informação é uma diferença que faz a diferença ‘para alguém’. A informação por si só não traz qualquer valor, por mais contraditório que isto possa parecer. O que tem, aliás, estado a acontecer é uma acumulação de informação que nenhum ser humano, no tempo de vida corrente, pode alguma ver conhecer, absorver e agir sobre.
    Além de uma questão que se torna cada vez mais relevante nas ciências cognitivas em relação a algumas teorias da acção: a de que se torna cada vez mais evidente que o ser humano não toma decisões através do uso racional de informação. Este toma decisões porque toma decisões, sobre um substrato sub-consciente. Isto torna a questão da informação ainda mais problemática.

    Grande abraço!

  2. […] título vem mais ou menos daqui) Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like this […]

  3. […] discussão democrática de um lugar, como um cursor no Photoshop que faz o sítio onde está perder definição, pormenor, ficando cada vez mais pixilado, mais parecido com o cenário de um jogo de computador […]

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