The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Traduzido para Palavras

Finalmente apanhei o Coração Acordeão (novinho) por um preço que já não esperava: 5 euros! Mas a leitura entristeceu-me. Um dos textos mais curtos, chamado Motete, vinha assim anotado ao fim:

In Diário de Lisboa, 18 Março 1971. Acompanhado de fotografia de motorizadas de aluguer no Campo Grande, em Lisboa, tb. in Critério, n.º 4, Fevereiro 1976.

E logo no texto seguinte, chamado Deambular:

In Diário de Lisboa, 8 de Abril de 1971., com errata uma semana depois. Acompanhado de fotografia de fachada de prédio, tb. in Critério n.º 4, Fevereiro 1976.

Se estes textos tinham sido obviamente criados para acompanhar imagens ao ponto disso ser lembrado numa nota, porque não se incluiu as imagens? Porquê legendá-los apenas com palavras? Espero bem que a decisão de excluir as fotos se deva a qualquer coisa que meta realmente medo (como a ameaça de ter que pagar um balúrdio em direitos de autor). Porque, tirando isso, não lhe vejo sentido.

Este livro faz parte de uma colecção publicada pelo Independente e que se propunha a celebrar os 16 anos de vida do jornal “pesquisando e resgatando dispersos de imprensa de escritores portugueses e brasileiros jamais reunidos em livro”. Se a intenção era essa, deveria haver talvez alguma consideração pela posição original desses textos, muitas vezes escritos para acompanharem certa imagem, não como uma legenda mas como uma espécie de ilustração invertida.

Mas, do mesmo modo que é costume isolar ilustrações dos textos para os quais foram feitas, do próprio suporte concreto para o qual foram concebidas, foi-se tornando comum isolar estes textos das suas imagens. E, no caso de O’Neill, o corte aleija mesmo. Faz diferença se aquelas motos são Famel ou BMW – em outro texto do mesmo livro um diálogo resume-se a:

–Levas o Fiat ou o Alfa?

–…

Não é uma literatura isolada do quotidiano, das marcas e da publicidade, da decoração de interiores, da tecnologia e – sobretudo – das páginas ilustradas onde ela própria se concretizava, integrando-se com anúncios, fotos e outros textos.

Mas ninguém melhor que o próprio O’Neill para pôr os pontos nos is:

O hábito magazinesco de legendar fotografias com frases “poéticas” foi-se perdendo. Hoje, a fotografia fala por si própria e a poesia também… À parte legendas de mera identificação (ou de humor), as imagens fotográficas dispensam o fraseário que era suposto apoiá-las. O jornalismo evoluiu para uma comunicação mais substantiva. […] Texto e imagem estão mais integrados. A fotografia perdeu o carácter de brilharete ornamental.*

E termina a crónica com “um lote de legendas de fotografias de magazine que, para serem compreendidas nas suas intenções, ‘dispensam’ perfeitamente as imagens de que eram acompanhadas…

O Castelo domina a imponente paisagem.”

*O texto vem mais uma vez no mesmo livro e chama-se Legendas de Fotografias.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

3 Responses

  1. Vasco Rosa diz:

    O livro — como a colecção inteira — é da minha responsabilidade, e MM nem sequer quis dar o nome ao protagonista, e muito menos referir que esta colecção, a primeira série de livros a valorizar a obra de André Carrilho, há quase 10 anos, foi escolhida por Henrique Cayatte para uma exposição de design em Milão.
    Não incluí as fotos das motos porque teriam péssima reprodução, mas dei aos leitores todas as indicações para que as fossem ver aos jornais. Não basta a Mário Moura?
    Há certamente muito que não baste a cada um de nós!…

    • E não falei de tantas outras coisas: do luar sobre as ondas, das ovelhas nas aldeias, de três ou quatro livros que ando a ler ou daquele disco que gosto muito de ouvir (é que o texto era curto e também não achei que fosse importante).

  2. […] Em Lisboa Ao Voo do Pássaro, fotos e textos são inseparáveis, não era possível ver um sem o outro. Agora é mais habitual andarem separados, e até já se reedita coisas desta altura com textos e […]

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