The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vitória Amarga

Esta semana, a propósito do aniversário da manifestação do 12 de março, houve quem a qualificasse como inconsequente.

Entre 300.000 e 500.000 mil pessoas manifestaram-se e numa democracia isso já deveria ser consequência suficiente. O próprio conceito de manifestação quer dizer, muito literalmente, tornar manifesta uma preocupação ou reivindicação dentro do debate público, algo ao qual não está a ser dada a atenção adequada ou suficiente.

Neste caso, a preocupação era a precariedade – este era o conteúdo da manifestação. Quanto à sua forma, uma distância cautelosa de partidos e sindicatos, também era só por si uma reivindicação – demonstrava desconfiança em relação à capacidade das instituições políticas tradicionais de resolverem alguns problemas novos, entre os quais o da precariedade.

Olhando com o mínimo de atenção para as políticas dos governos dos últimos anos, fortemente sustentadas em argumentos de economista, a precariedade não é exactamente o problema mas a solução – a guerra contra os direitos adquiridos é generalizada no centro-esquerda como no centro-direita. A única diferença é de grau, e nem poderia ser de outra maneira, tendo em conta a hegemonia internacional desta tendência – todos os países fixes a praticam em grau menor ou maior.

No 12 de Março pedia-se uma solução para um problema que é convenientemente invisível dentro do discurso governativo actual (do país, da Europa, do mundo). Um primeiro passo para isso seria levar essa reivindicação a sério. Mas caiu o governo, veio a Troika e veio outro governo que queria ir ainda mais além da Troika, querendo com isso dizer aplicar ainda mais a precariedade como solução. Resumindo, o problema só piorou, porque não passa pela cabeça de ninguém que possa ir parar a um governo vê-lo como um problema.

Talvez o 12 de Março não tenha tido consequências em termos de levar a soluções para a precariedade, mas essa inconsequência demonstra bem que tinha razão ao desconfiar da capacidade das instituições políticas para resolverem este e outros problemas graves da nossa sociedade. Nesse aspecto, e muito infelizmente, foi um sucesso retumbante.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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