The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Rótulo e Contra-Rótulo

Ontem, o Professor Marcelo respondeu à pergunta de um telespectador sobre o que achava da polémica em torno da criação de um vinho chamado Salazar dizendo qualquer coisa como é sinal que estamos numa democracia e nos tempos de Salazar isso não seria possível. Porquê? Porque o ditador nunca o autorizaria e até achava estranho que a família tivesse deixado.

É um péssimo argumento. Percebe-se a tentativa de ironizar: lá no fundo no fundo, fazer um vinho chamado Salazar ia chatear o homem, que não era dado a estas publicidades, portanto a ideia até nem contribui tanto para celebrar a sua memória como para a distorcer.

Mas andamos durante quarenta anos a dedicar toda a atenção e recursos deste país a não chatear Salazar e não me parece que tentar perceber o que o homem ia ou ia não querer seja de todo importante. É uma figura pública que pode ser usada em livros de ficção, de investigação, de teatro, etc. Enquanto figura histórica Salazar, com o 25 de Abril, perdeu boa parte do direito à privacidade que tanto o encobriu em vida e que estendeu por todos os meios à vida pública do seu país ao ponto de a mutilar, talvez irremediavelmente.

A democracia não se limita à possibilidade de usar a figura de um ditador, contra a sua vontade, num rótulo de vinho. A democracia consiste em poder discutir isso em público. Em, sempre que alguém tem a triste ideia de tentar recuperar a figura de um ditador para vender vinho ou cenouras, poder protestar em público contra isso – não para o impedir ou proibir mas simplesmente para que se pense melhor e se tenha algum cuidado antes de fazer uma coisa destas.

O que se ganhou com o 25 de Abril não foi apenas a possibilidade de dizer tudo e mais alguma coisa mas sobretudo a possibilidade de poder discordar publicamente – a democracia é o governo através da discussão pública e portanto acho bem que se discuta as implicações de um tal rótulo. Cada decisão pública tem consequências e alguém discordar disso é a primeira e mais inevitável delas.

Nem me chateava muito se no rótulo do tal vinho viesse alguma referência ao outro lado da história – as tais vítimas, torturas e censura – como aqueles avisos do fumar mata. Em grandes letras negras, tantos e tantos torturados, presos, etc. Capas dos livros proibidos. Fotos dos mortos. Era capaz de nem deixar espaço para a foto do homem.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Política, ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: