The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Feira do Livro

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Segundo o vendedor, fui a primeira pessoa a comprar a edição portuguesa de A Noite dos Proletários, de Jacques Rancière. Já andava atrás do livro há algum tempo, uma história de operários que, no começo do século XIX, se dedicavam nos seus poucos tempos livres a produzir e a consumir cultura, política, etc.

Depois de ver os Mistérios de Lisboa (e gostar) fiquei curioso e resolvi experimentar, também do Camilo, os Mistérios de Fafe – calculo que o escritor o tenha publicado para concorrer a uma bolsa municipal, uma residência literária, ou coisa assim.

Apanhei finalmente mais dois foto-livros portugueses dos anos oitenta. Tomai Lá do O’Neill, uma colaboração do escritor com o seu próprio filho, e a Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lurdes Modesto, com design de Sebastião Rodrigues e fotos de Augusto Cabrita (por coincidência, entrevistado por O’Neill num texto publicado na antologia Já Não Está Aqui Quem Falou). Conto falar um pouco mais destes em breve.

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Filed under: Design

2 + 2 = 0

Hoje li no Público uma notícia que descrevia como Vítor Gaspar, no encerramento da conferência Growth and Competitiveness under Adjustment (“Crescimento e Competitividade no âmbito do Ajustamento”), a decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, tinha dito que  “os receios de uma recessão mais profunda não se concretizaram em 2011” mas que os níveis de desemprego preocupavam porque são mais altos que o previsto. Ou seja, a economia até nem está assim tão mal como isso, tirando todos aqueles desempregados imprevistos, coitaditos.

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Dia Mundial dos Gráficos

Diz-se que é o “Dia do Design” mas seria mais exacto traduzi-lo como “Dia do Design Gráfico”ou, mais exactamente ainda, como o “Dia Mundial dos Gráficos”, mas isso aqui em Portugal poderia dar a entender aquelas pessoas que trabalham nas gráficas e não os designers, que supostamente são gente mais fina. Contrariando a tendência, sempre gostei da expressão “design gráfico” que evoca bem a ideia de visualidade, de escrita – que não invalidam a sua expressão num ecrã –, mais do que a expressão mais genérica do “design de comunicação” que poderia ser aplicada a um engenheiro de sistema ou a um programador de eventos.

É um dia que começa a ter a sua visibilidade por aqui, servindo como mais uma maneira de construir a identidade pública dos designers e de os juntar como uma comunidade. Neste aspecto, o Dia do Design da Esad de Matosinhos tem sido uma iniciativa particularmente bem sucedida – a que este ano não vou poder assistir (espero que corra bem).

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O Quarto Taxista

Só para dizer que hoje tive a minha terceira conversa sobre design com um taxista (o quarto taxista do título pode ser compreendido aqui). Nunca lhe disse o que fazia. Foi ele que começou a conversa quando lhe disse que íamos para as Belas Artes. Tinha tirado um curso de design de interiores no começo dos anos 90. Acabamos a falar da Bauhaus e dos arquitectos da Escola do Porto, que antes de ser no Campo Alegre era nas Belas Artes.

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A economia doméstica

Para a direita, tornou-se habitual comparar as dívidas de um país com as de uma família, enquanto para a esquerda já é rotineiro mostrar que a comparação é descabida. É uma diferença de opiniões central e talvez irredutível.

Enquanto uns acreditam que não há (ou não deveria haver) Estado, apenas a soma de famílias e empresas, os outros acreditam que o Estado não só é mais do que a soma das partes como assegura funções que nenhuma família ou empresa conseguiria assegurar.

Porém, ao reflectir sobre a dívida pública portuguesa se calhar até é útil pensar nela como a de uma família para com o seu banco. Não uma família actual, mas uma daquelas famílias esforçadas dos anos 60 e 70, que levavam as suas hipotecas mais do que a sério, como um fardo moral, quase uma sentença judicial.

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Contra o medo

Nos últimos meses, fui-me habituando a sentir medo. Senti medo em Outubro em frente à assembleia da República, quando a polícia de choque entrou em formação ao alto da escadaria. Senti medo pouco depois da carga do Chiado. E hoje, mais uma vez, senti-o. Passei perto da escola da Fontinha por volta das seis, tentei ligar a amigos que lá estavam ninguém atendeu. Vi um carro da polícia parado em Santa Catarina junto ao Automóvel Clube de Portugal. Passou outro por mim a descer. Um pouco depois, três ou quatro motas da polícia. Voltei a tentar e nada. Acabei por vir para casa, e pela net fiquei a saber que a reocupação tinha sido um sucesso e uma festa (ainda bem). Ninguém me atendia porque nesse momento entrava-se na escola, mas eu esperei o pior.

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Documentário

Vi ontem às duas e pouco da manhã o documentário Donos de Portugal, que formalmente não é incrível, não é o Pare, Escute e Olhe, por exemplo. Pelo seu ar cru e expediente, poderia perfeitamente ser uma grande reportagem, das que passam durante um telejornal e costumam ser dedicadas aos efeitos da crise (sobretudo se puxarem ao sentimento): velhinhos a viverem sozinhos na baixa, jovens a trabalharem num call center, uma família de oito filhos a sobreviverem com cem euros por mês, etc.

Mas esta é uma reportagem sobre as causas da crise e demonstra-as abundantemente: um poder económico concentrado em meia dúzia de pessoas, transmitido por casamento e herança, protegido pelo Estado; um poder que protege abertamente os políticos que o favorecem, numa promiscuidade tão obvia que parece inevitável; um poder que se apoia sistematicamente em subsídios estatais de larga escala (pelos vistos um subsídio só é mau quando é pequeno).

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Foto-Livros do 25 de Abril (II)

Este é o meu favorito, com texto de Mário-Henrique Leiria e imagens de João Freire, e arranjo gráfico de Artur Henriques. Foi editado em Abril de 1979, já a revolução tinha meia década e começava a esboroar-se. Em Lisboa Ao Voo do Pássaro, fotos e textos são inseparáveis, não era possível ver um sem o outro. Agora é mais habitual andarem separados, e até já se reedita coisas desta altura com textos e imagens vendidos à parte. E mesmo a união dos dois, o seu arranjo, também se vende à parte e pelos vistos chama-se design. Falo aqui de especialização e não de colaboração, que é a qualidade que estes livros tinham. Colaborava-se neles com todas as energias, não para poupar trabalho, ou para o tornar mais eficiente, mas para conseguir o que uma pessoa sozinha não conseguiria. Não se trata de uma divisão de tarefas mas de uma adição.

Ficam aqui algumas páginas para ver e para ler.

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Foto-livros do 25 de Abril (I)

Não é um livro de ar caro. O papel é fino e quase transparente. As fotografias são pardas. A história vem ao começo sob a forma de textos impressos só de um lado da folha. As fotos vêm a seguir, sucedendo-se numa narrativa que deveria ser evidente para quem viveu aquilo pouco tempo antes. Havia à época uma fé no poder de colocar umas tantas imagens num livro, cortando-as, reenquadrando-as, deixando-as ocupar a dupla página que já não parece agora tão possível.

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Pobres mas honrados

Assim, diz o Diário Económico que a nossa despesa pública está abaixo da média europeia. Dizem também que a dívida é das maiores. Quem ainda se dedica ao neoliberalismo concluirá que estamos no bom caminho mas que é preciso cortar ainda mais. Quem prestar atenção ao que os perigosos comunistas do Fmi andavam a dizer na semana passada percebe que não são boas notícias.
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Teatro Moderno (e Teatro Português), Vítor Palla

Apanhei o Teatro Moderno de Luís Francisco Rebello, “dirigido graficamente” por Vítor Palla – é essa a expressão usada. Foi editado em 1957 pelo mesmo Círculo do Livro que lançaria uns anos depois, também em fascículos, o Lisboa Cidade Triste e Alegre. É um volume cheio de ideias gráficas, de sequências, de caracteres ornamentados. Um dia antes, noutro alfarrabista, tinha apanhado o Teatro Português, desta vez “organizado graficamente” por Palla, talvez um pouco menos interessante, mas com muito bons detalhes.

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Conferências na Culturgest

Amanhã, dia 21, pelas 18h30 terá lugar a última das seis conferências do ciclo que tenho dado na Culturgest de Lisboa, e que teve início em outubro do ano passado. A ideia de partida para cada uma destas conferências foi escolher um objeto, um livro, que permitisse, por sua vez, apontar para outros objetos, outros livros, mas também para exposições, filosofias, políticas, etc. Aqui fica o texto de apresentação da sexta e última:

Em 2003, a revista Dot Dot Dot publicou um curto ensaio da autoria de Mark Owen e David Reinfurt, com o título “Group Theory – A Short Course in Relational Aesthetics”. Ilustrado por retratos coletivos de alguns dos ateliers de design, arte e arquitetura mais marcantes do século XX, propunha-se descobrir nestas fotografias, nas suas poses evidentemente encenadas perante a câmara, indícios de diferentes filosofias criativas, estruturas empresariais ou hierarquias laborais.

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Comunidade

Tanto as escolas como os hospitais, como os transportes públicos, como até os cinemas, para além das suas funções mais óbvias, costumavam servir de suporte a comunidades. Para isso, é claro, não podiam ser demasiado eficientes a fazer as tais funções – não podiam servir áreas demasiado amplas, ter uma grande escala, muitos utentes, alunos, público. Ou seja, a sua falta de eficiência era sobretudo económica.

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Departamento de departamentalização

“1. O autodenominado grupo Es.col.A – Espaço Coletivo Autogestionado do Alto da Fontinha ocupou em Abril de 2011 de forma abusiva e ‘selvagem’ as instalações da antiga escola básica da Fontinha para atividades que não estão devidamente tipificadas.”

Do comunicado da câmara do Porto. Pela expressão “devidamente tipificados”, calculo que um dos problemas da Es.col.A foi ter-se esquecido de abrir uma S.e.cret.a.ria. Neste momento, o ensino português vai-se tornando num curso de formação em burocracia, hierarquia e Kafkianismo. Toda a relação interpessoal deve ser mediada por pelo menos um papel.

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Passos argumenta

Passos no Finantial Times, tradução minha do inglês para português:

“É claro, estamos cientes do argumento que os programas e medidas de austeridade para equilibrar as contas pode ser prejudicial ao crescimento a longo prazo. É por isso que nos concentramos num pacote de medidas equilibrado. Contudo, os equilíbrios fiscais externos são precondições ao crescimento sustentável, competitividade e criação de emprego. Eles providenciam as bases para a mudança estrutural.”

Tradução minha para português corrente:

“Sabemos que a austeridade pode não funcionar a longo prazo mas, se não a aplicarmos já, ela não vai funcionar.”

Ou coisa assim.

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Governo insiste que austeridade ainda está na moda

Depois do Fmi ter avisado mais uma vez que “demasiada austeridade pode ameaçar” a recuperação, o Governo vem dizer que não, que em Portugal isso não se pode aplicar. Porquê? Porque, de acordo com Gaspar, as políticas expansionistas (ou seja de aumento de despesa pública) de José Sócrates conduziram ao actual défice. Não é exactamente verdade, como a comparação com outras economias em crise demonstra. Quando tudo isto começou, Espanha e Irlanda eram bons exemplos de responsabilidade económica, e Portugal estava a reduzir o seu déficit. E, de resto, Sócrates não caiu por causa do déficit mas por causa do chumbo do Pec IV, uma aproximação bastante modesta às medidas que este Governa está a pôr em prática.

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Pessoa, o desenrascado

Estou a gostar de o ler, pela ideia e pela informação, embora nem tanto pelo estilo ou pelo tom, em particular aquele hábito muito académico de dizimar as ideias mais especulativas dos outros enquanto se pede perdão ao leitor pelas próprias. Mas a história de Fernando Pessoa como dono de gráfica falhada, editor um pouco menos falhado, engenhocas inventor de máquinas de escrever e metido em negócio de minas, mostra-lhe o lado mais do que humano, desenrascado, aquela coisa bem portuguesa que não chega a ser bem espalhar-se ao comprido mas que também nunca chega propriamente ao sucesso.

Quando me recomendaram o livro, procurei-o em vão durante uns dias. Jorge Luís Borges tem uma história sobre dois teólogos do início do cristianismo que se tornaram inimigos mortais por uma diferença de ideias qualquer. Um deles conseguiu fazer com que o outro fosse declarado herético e eventualmente queimado na fogueira. Muitos anos depois, ele próprio morreria num incêndio e quando foi chamado à presença de Deus consta que o Criador se dirigiu a ele tratando-o pelo nome do seu inimigo, dando a entender que, para Ele, os dois teólogos eram um só. E eu andava à procura do livro como se o autor fosse Vasco Graça Moura.

 

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Sacrifícios para Tótós

Há três meses, Pedro Santos Guerreiro congratulava o Governo pelas reformas da lei do trabalho, tão difíceis e improváveis que lhes chamou um “unicórnio que voa”. Reconhecia que tudo “o que é perdido, é o trabalhador que perde. Tudo o que é ganho, é a empresa que ganha. Tudo o que é omisso, é omisso para o trabalhador, para o precário ou para o desempregado.”

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Graphic Forms, 1949

Estava para o comprar na net mas acabei por o apanhar na Sá da Costa (onde também já tinha dado com um do Eric Gill há uns anos). É uma antologia de textos sobre o livro, uma parte importante do debate modernista em torno do seu design, incluindo contribuições de Dwiggins e Rand, usando exemplos de Lustig, entre outros.

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Filed under: Design, História, Publicações

A Família

Quase uma semana depois, já não há muito a dizer sobre o artigo de José António Saraiva no Sol. É uma espécie de antologia do preconceito e da homofobia, onde começa por concluir, unicamente a partir da sua aparência, que um rapaz que partilha o elevador com ele é gay.* Daí salta rapidamente para a conclusão que afinal talvez não seja gay, que só faz de conta que é gay por rebeldia, para chatear os pais. Se nos anos sessenta se era “de esquerda” para chatear a família agora é-se “homossexual”.

Como distingue Saraiva os homossexuais a sério dos homossexuais por pirraça? Não diz, mas suspeito que, se um homossexual tiver convicções políticas ligadas à homossexualidade – defendendo o casamento gay, por exemplo – será mais provável que não seja um homossexual a sério.

Enfim. Nem vale a pena.

Se calhar mais vale reflectir sobre outro aspecto do texto, a sua defesa obsessiva da família. Leia o resto deste artigo »

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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