The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ao Norte, onde os pixeis são maiores

Toda a gente sabe – e se não sabe, os suplementos culturais dos jornais esclarecem – que o Porto tem uma cena alternativa mais viçosa que a de Lisboa, etc. Andando entre Lisboa e Porto, é fácil comprovar que não é exactamente verdade.

Na capital também há uma cena alternativa forte, cheia de concertos, publicações e tascas urbanas com exposições de ilustração e design, gente aos magotes a beber litrosas na rua e tudo o resto. A diferença é que está ensanduichada (disfarçada) entre bienais, trienais, museus, conferências e festivais de cinema – apenas uma peça no ecossistema da cidade.

No Porto, pelo contrário, quase toda a cultura é de pequena escala, ocupando os mesmos espaços das velhas mercearias, lojas de ferragens e livrarias, mas também o mesmo nicho económico – nem tanto um desvio irónico como apenas a actualização de um velho formato.

A cidade vai-se especializando num turismo barato e impulsivo, que se mete num avião para passar um fim de semana num sítio quase ao acaso, que não precisa de muito mais que ruas bonitas e uma cerveja na mão. Naturalmente, a música é o género dominante, ideal para uma cidade que pode ser visitada quase sem legendas. Pelos mesmos motivos, a ilustração de parede, um formato essencialmente decorativo, bibelô, vai-se tornando na arte dominante.

É uma má noticia para o design gráfico, que precisa de uma certa ambição cívica para medrar. Não serve apenas para indicar aos turistas onde fica o museuzito mas para sustentar uma vida urbana complexa e informada. Usando uma analogia com um livro, o design é o índice da cidade, a visualização das suas hierarquias e dos seus possíveis usos. Mas o Porto vai perdendo a complexidade da sua vida cívica e tornando-se num livro mais simples, quase um caderno. A sua qualidade de vida é mais adequada a quem passa, que a quem se decide a ficar.

(O título vem mais ou menos daqui)

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

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