The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Mesita de Café

Nos intervalos e nas férias vou lendo a biografia de Luiz Pacheco, que é também um grande retrato das condições precárias em que ainda se produz cultura por aqui – sempre à custa de um segundo emprego ou das ligações de família e poder. Tentar uma terceira via, como Pacheco fez, implica pobreza, miséria e marginalização. Viver da caridade, às vezes à custa de ser o bobo da corte ou o bêbado da aldeia.

A santidade que se atribui a figuras como Pacheco por aqui por Portugal é sintoma de um conformismo muito nítido: ou se leva a vidita fácil, conformada do costume, ou se sacrifica tudo – sem meio termo, a única alternativa razoável será sempre a vidita, pagando de quando em quando uns almocitos e uns copos a quem se decidiu pela outra opção.

Quando comecei a ler a crítica produzida por Pacheco, surpreendeu-me o carácter pessoal das avaliações, falava-se pouco de literatura e demasiado de quem a tinha escrito. Nas ocasiões em que elogiava um livro, a admiração era exclamativa mas só muito raramente analítica. Criticava pessoas e filiações; a boa literatura era o que sobrava disso tudo.

Como crítico, Pacheco escrevia os mexericos de café que se iam perpetuando nas costas das vítimas e que nunca são realmente trazidos a público – nem é suposto. O célebre “Caso do Sonâmbulo Chupista” é um bom exemplo: Pacheco limitou-se a publicar acusações de plágio que já circulavam em surdina há anos, das quais a própria vitima se distanciou rapidamente depois da denúncia. Ou a ocasião em que outros escritores o denunciaram à censura porque publicou textos à sua revelia, mostrando como usavam por vezes os meios repressivos do regime para os seus próprios fins.

Fica a ideia de um país com um pavor administrativo de tudo o que é demasiado público, onde é preferível o mexerico oral, sempre desmentível, a uma esfera pública mais alargada. Onde a edição e publicação são apenas o resto em negativo das várias triagens pessoais ou institucionais – que é como quem diz “censuras”. A cada passo desta biografia, fica o retrato de um país que se vai constantemente autocensurando, de maneira a que permaneça com o tamanho ideal do tampo de uma mesita de café.

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Filed under: Arte, censura, Crítica, Cultura, Política

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