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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design e Diáspora

Nos últimos anos é palpável a presença de designers ou ilustradores portugueses um pouco por todo o mundo e em posições de destaque. Em alguns casos, residem lá fora, produzindo o seu trabalho para outros países incluindo – até – Portugal. Susana Carvalho na Holanda, Pedro Cid Proença e João Fazenda em Inglaterra, Vera Sachetti em Milão. Outros vivem em Portugal, mas trabalham para clientes internacionais: João Maio Pinto, por exemplo. Quanto a André da Loba, Cristiana Couceiro e André Carrilho, cujo trabalho também aparece no selecto New York Times (quase português pela quantidade de ilustração nacional que por lá é usada), não sei se vivem por aqui.

É um trabalho no seu conjunto rico e quase irresumível que, além do design e ilustração, inclui desenho, animação, edição, escrita, comissariado, e que demonstra um amplo leque de competências produzido ao mais alto nível. Demonstra que, esquecendo todas as trapalhadas do design português, ainda se formam por aqui bons profissionais, uma educação que vem em parte das escolas mas sobretudo do reduzido mercado nacional, muito centrado em Lisboa e nas áreas da edição e da cultura. É um mercado que não chega para um profissional crescer tudo o que pode mas ajuda.

Ou antes, ajudava.

Com os cortes no  ensino, tanto ao nível do dinheiro como da quantidade de professores, que se reflecte em mais cadeiras por docente e mais alunos por turma, a qualidade geral vai piorando e o talento vai ficando por apoiar. A burocracia crescente que se vai infiltrando na academia, substituindo a investigação por papelada que se tem que produzir para trepar na carreira, mostra que a função por aqui deixou de ser a aprendizagem para se reduzir à mera legitimação – para quê fazer qualquer coisa de jeito quando basta um carimbo a dizer que fazemos qualquer coisa de jeito?

Com os cortes na cultura, os alunos e profissionais de design (e o seu trabalho) vão saindo cada vez mais cedo do país por falta de clientela. E isto ainda antes da política de incentivo à emigração qualificada (especialmente na área da cultura) e ao regresso à agricultura do actual governo. É o desperdício final do pouco que foi feito, juntando-se a cultura e o design àquelas linhas de comboio no interior que foram definitivamente encerradas pouco depois de se terem feito lá obras.

Calculo que no futuro se fale desta fase do design português como de diáspora e de expansão, mas é de uma precariedade tornada internacional que se fala realmente , de um anti-intelectualismo sistemático que expulsou o que de melhor tínhamos, e para o justificar invocar-se-ão precedentes históricos: os intelectuais expatriados do Salazarismo, a expulsão dos Judeus. Dir-se-á que é o nosso destino. Mas isso é história, com a qual não temos outro dever se não aprender. Esta nova diáspora ainda pode ser evitada.  Não é preciso uma máquina do tempo, basta outro tipo de governo nacional e europeu.

Fala-se de défices na economia, mas o nosso maior défice continua a ser cultural e com esta nova emigração até a cultura que nós próprios produzimos terá de ser importada para chegar aqui.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. […] que falta em Portugal são mais criativos com consciência política e social, como este. Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like this . Com as tags Design, […]

  2. Hugo Baeta diz:

    Olá Mário. Sigo o teu blog há algum tempo e hoje não podia deixar de comentar. Eu também faço parte dessa lista de designers que fugiram do país. Trabalho neste momento como designer de experiência aqui mesmo onde tens o teu blog: no WordPress.com

    Antes de estar aqui era web designer no Jornal Público (onde iniciei a transformação online dos canais periféricos, liderando o redesign do Cinecartaz). Foi um processo interessante, mas trabalhar para o WordPress.com era um sonho que se materializou. O meu trabalho afecta um número muito mais extenso de pessoas e as compensações são, como deves calcular, muito mais interessantes.

    Acredito que esta situação, da emigração de talento, se resume à pobre valorização que se dá, ainda, ao design em Portugal – é o chegar a um patamar e não se ver forma alguma de se subir na carreira (ao contrário dos administradores, gestores e afins, que ganham exponencialmente mais que elementos chaves de uma equipa, como os designers.).

    Enfim, fica o desabafo.

    Obrigado pelo teu blog, sou seguidor e leitor assíduo! 😉

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