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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Família

Quase uma semana depois, já não há muito a dizer sobre o artigo de José António Saraiva no Sol. É uma espécie de antologia do preconceito e da homofobia, onde começa por concluir, unicamente a partir da sua aparência, que um rapaz que partilha o elevador com ele é gay.* Daí salta rapidamente para a conclusão que afinal talvez não seja gay, que só faz de conta que é gay por rebeldia, para chatear os pais. Se nos anos sessenta se era “de esquerda” para chatear a família agora é-se “homossexual”.

Como distingue Saraiva os homossexuais a sério dos homossexuais por pirraça? Não diz, mas suspeito que, se um homossexual tiver convicções políticas ligadas à homossexualidade – defendendo o casamento gay, por exemplo – será mais provável que não seja um homossexual a sério.

Enfim. Nem vale a pena.

Se calhar mais vale reflectir sobre outro aspecto do texto, a sua defesa obsessiva da família. A homossexualidade contestatária é vista sistematicamente como uma ameaça à família. Aquilo que Saraiva chama a “opção gay”, por exemplo:

“é uma forma de negação radical: porque rejeita a relação homem-mulher, ou seja, o acto que assegura a reprodução da espécie. Nas relações homossexuais há um niilismo assumido, uma ausência de utilidade, uma recusa do futuro. Impera a ideia de que tudo se consome numa geração – e que o amanhã não existe. De resto, o uso de roupas pretas, a fuga da cor, vão no mesmo sentido em direcção ao nada.”

De igual modo, também se percebe bem que a esquerda contestatária é mais outro inimigo da família:

“Pertenci a essa geração em que muitos jovens da minha idade estavam em guerra aberta com a família. Eu tinha amigos revolucionários, que andavam a pintar paredes com frases contra Salazar e a guerra colonial, ou em reuniões clandestinas contra a ditadura, cujos pais tinham lugares de confiança no regime salazarista.

Houve conflitos tremendos entre pais e filhos. Os pais, funcionários exemplares, presidentes de Câmara, directores-gerais, militares de elevada patente, etc., sofriam horrores com a irreverência dos filhos que andavam em manifestações, entravam em conflito com a Polícia e às vezes eram presos.

Em 1969, era o meu tio José Hermano Saraiva ministro da Educação Nacional, eu estava envolvido na luta académica contra o Governo na Escola de Belas-Artes. E pouco depois o meu irmão mais velho foi preso e julgado por ‘actividades subversivas’ – e quem o defendeu, num acto de grande coragem e dignidade, foi ainda o meu tio José Hermano, que era então deputado.”

Por aqui talvez se possa perceber que esta ameaça à família não é a uma família qualquer, mas a uma certa noção aristocrática de família que ainda é muito palpável em Portugal apesar de uma camada muito superficial de democracia republicana. Uma família onde há tios que são ministros e pais que são “presidentes de Câmara, directores-gerais, militares de elevada patente.” Não admira que a um poder que ainda se organiza em termos de laços de sangue, onde o acesso à vida pública ainda se caracteriza pela associação a uma certa linhagem, a homossexualidade enquanto identidade pública pareça tão subversiva.

*Seria igualmente preconceituoso assumir que o jornal Sol com o seu logo multicor, quase um arco-iris, seria um jornal LGBT.

Filed under: Política

One Response

  1. aquilo que me parece é que AJS está a ficar senil.. ou totó….

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