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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sacrifícios para Tótós

Há três meses, Pedro Santos Guerreiro congratulava o Governo pelas reformas da lei do trabalho, tão difíceis e improváveis que lhes chamou um “unicórnio que voa”. Reconhecia que tudo “o que é perdido, é o trabalhador que perde. Tudo o que é ganho, é a empresa que ganha. Tudo o que é omisso, é omisso para o trabalhador, para o precário ou para o desempregado.”

Mas o “acordo é bom, pois a situação era desequilibrada a favor do trabalhador”, e deixemo-nos “de histórias: o primeiro efeito desta mudança da lei será de destruição. Há milhares de empresas que estavam à espera disto para avançar com os despedimentos. Porque precisam de reduzir a sua capacidade, os seus custos, e porque não querem pagar milhares de euros em indemnizações.”

Agora, segundo Guerreiro, a bola está do lado dos empresários. Sem a desculpa da legislação laboral inflexível, só os melhores é que se vão safar: “A concertação social deu-lhes os meios que eles sempre reivindicaram, nunca mais poderão queixar-se se não de si mesmos. Ou são bons gestores, ou são maus gestores. […] Temos muitos chefes incultos, gestores que não imaginam como se motiva, lidera, envolve e premeia, empresários muito pouco exigentes em relação a si mesmos. Todos eles estão hoje radiantes mas ficarão preocupados se a sua própria incompetência se tornar visível. É também por isso que esta reforma é boa, porque separará os bons gestores dos empresários duma figa.”

Já na altura me pareceu uma ideia ingénua. A incompetência dos nossos empresários sempre foi perfeitamente visível a olho nú e ao mais alto nível e isso nunca os impediu por um momento de continuarem a ser incompetentes. De resto, o argumento dá a entender que – no fundo, no fundo – os direitos eliminados até eram dos empresários. Estava-se a sacrificar o direito de, se as coisas correrem mal, poderem arranjar uma desculpa qualquer.

Agora, uns meses depois, Santos Guerreiro fala da “lição dos trabalhadores à economia”. E qual é essa lição? “Ao contrário do que acontece nas grandes empresas e no Estado, há muitas PME que cuja competitividade está a ser financiada pelos trabalhadores, que interiorizam as dificuldades de sobrevivências das próprias empresas – e nivelam as suas condições à conjuntura. O caso mais radical são os salários em atraso: os trabalhadores preferem tentar preservar o seu posto de trabalho a recorrer a um tribunal e fazer valer os seus direitos.”

E é claro que esta “lição de sabedoria que os trabalhadores portugueses estão a dar não pode ser gratuita. Só se justifica em determinadas condições. Se for temporária. Se for em empresas economicamente viáveis que só estão em risco por razões de conjuntura. Se for em empresas em que depois não há distribuição de lucros – e se houver, que se comece pelos próprios trabalhadores. Se for com empresários que os mereçam, não que os esvaiam em falências fraudulentas.”

Conhecendo a situação em inúmeras empresas de design, por exemplo, que desde há anos se sustentam à custa de “estágios” ou de subsídios estatais ao primeiro emprego (mais conhecidos por Estágios Profissionais) – ou seja, trabalho a custo zero – não me parece que os sacrifícios dos trabalhadores sejam uma coisa nova. E calculo que só muito raramente sejam feitos por um objectivo elevado.Na grande maioria dos casos servem apenas para cobrir erros de gestão e incompetência. Pedir sacrifícios durante um ano é uma coisa; pedi-los desde há décadas é um método de gestão – até já vejo o título: “Sacrifícios para Tótós”.

Resumindo, a crise permitiu aos empresários trocarem de desculpa: dantes podiam ser incompetentes por culpa dos direitos do trabalho; agora podem ser incompetentes por culpa da falta de direitos do trabalho.

E é claro que, ao contrário do que defende PSG, isto não acontece apenas no privado mas na função pública: o processo habitual é inventar-se nas direcções um regulamento qualquer que se for posto a funcionar matará seguramente umas tantas pessoas; as direcções abaixo acrescentam-lhe as suas próprias interpretações potencialmente ainda mais letais; depois a coisa chega aos infelizes que realmente têm que cumprir a coisa, que, se forem boas pessoas, têm o dobro do trabalho a distorce-la o suficiente para não ter efeito prático, enquanto demonstram ao nível da papelada que até funciona. Assim as chefias continuam a acreditar que são competentes, e concluem que, se esta imbecilidade e a anterior deram certo, uma três vezes pior não será irrealista.

Filed under: Design

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