The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Contra o medo

Nos últimos meses, fui-me habituando a sentir medo. Senti medo em Outubro em frente à assembleia da República, quando a polícia de choque entrou em formação ao alto da escadaria. Senti medo pouco depois da carga do Chiado. E hoje, mais uma vez, senti-o. Passei perto da escola da Fontinha por volta das seis, tentei ligar a amigos que lá estavam ninguém atendeu. Vi um carro da polícia parado em Santa Catarina junto ao Automóvel Clube de Portugal. Passou outro por mim a descer. Um pouco depois, três ou quatro motas da polícia. Voltei a tentar e nada. Acabei por vir para casa, e pela net fiquei a saber que a reocupação tinha sido um sucesso e uma festa (ainda bem). Ninguém me atendia porque nesse momento entrava-se na escola, mas eu esperei o pior.

Ter-me cruzado na altura com gente calmamente às compras ou à espera do autocarro não me sossegou: no Chiado, pouco depois do evento, os turistas andavam calmamente às compras no meio das ambulâncias e da polícia. Não sei porquê, espera-se que uma crise seja algo total, completo; mas mesmo numa situação tão extrema como  uma crise ainda há quotidiano, gente a fazer compras, a ler o jornal, a passear o cão, a preocupar-se com o que há-de vestir logo à noite. Há algumas coisas que mudam, claro, mas são por vezes tão pequenas que quase nem damos conta. Depois da carga do Chiado, uma amiga disse-me que no seu caminho habitual de casa para o emprego se tinha dado conta com um calafrio que tinha mudado, pela primeira vez e inconscientemente, de passeio em frente à esquadra da polícia.

Numa das janelas da Fontinha um cartaz dizia que o medo tinha morrido em 74. Eu não o diria com tanta segurança, mas a reocupação da escola fez o que só as melhores festas conseguem fazer nos tempos de crise: foi uma vitória – não interessa quão pequena ou precária – contra o medo. Sinceramente, preferia voltar àqueles anos em que o dia 25 de Abril era só um feriado, e se cumpriam uma tantas formalidades, e se cantavam as canções e slogans do costume. Preferia que fosse simplesmente uma festa e nunca mais fosse necessário voltar a usá-lo como um archote contra o medo. Mas, mesmo assim, é bom saber que ainda tem esse poder.

Filed under: Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. m diz:

    Medo está inerente a todos
    É só medo e mais nada.
    Só escrevo pelo medo.

  2. maria diz:

    na política só me interessa .. aquilo que não podem dar. Não existe.

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