The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Hoje li no Público uma notícia que descrevia como Vítor Gaspar, no encerramento da conferência Growth and Competitiveness under Adjustment (“Crescimento e Competitividade no âmbito do Ajustamento”), a decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, tinha dito que  “os receios de uma recessão mais profunda não se concretizaram em 2011” mas que os níveis de desemprego preocupavam porque são mais altos que o previsto. Ou seja, a economia até nem está assim tão mal como isso, tirando todos aqueles desempregados imprevistos, coitaditos.

Para Gaspar, esse desemprego inesperado só significa que é preciso acelerar ainda mais as mesmas reformas estruturais que já tem feito, e cujo efeito é o tal desemprego inesperado. No fundo está a dizer que “nada do que fizemos está a ter o resultado esperado, mas isso é um estímulo para acelerar aquilo que estávamos a fazer e que não está a ter o resultado esperado.” Alguém mauzito até poderia concluir que o modelo teórico aplicado por Gaspar é bom para a economia, mas péssimo para o emprego. Ou seja, tirando um milhão e meio de portugueses sem emprego, estamos no bom caminho.

Chegando ao fim do texto aparece um link para outra notícia no Público sobre a mesma intervenção de Gaspar na mesma conferência – porquê uma conferência dividida por duas notícias? Mistério, mas o efeito de conjunto é cómico. Nesta segunda notícia, Gaspar declara que o ajustamento da economia está a correr mais rápido que o esperado. Um bom exemplo é que “estamos a reequilibrar as contas externas”, reduzindo o défice da balança externa corrente de 10% para 6,5% do Produto Interno Bruto em um ano.

Diz Gaspar que, para este sucesso contribui a rápida adaptação “das famílias, quer das empresas, que ao reduzirem o consumo e o investimento, reduzem as importações e, também, o endividamento da economia.”

É claro que a tal pessoa mázita poderia dizer que essa redução de consumo e investimento acontece em parte porque 15% do país está desempregado. Ou tem um emprego e está a contar os tostões, consumindo o mínimo possível, o que leva a que os fornecedores não vejam muita necessidade de investir em mais funcionários (e talvez até a dispensarem os que já têm, criando mais desemprego, que gera ainda menos consumo, etc.).

Resumindo, não só é preocupante que o Ministro das Finanças ache a quantidade de emprego inesperada, como durante a mesma hora se tenha congratulado com uma recuperação inesperadamente rápida, provocada em grande medida pelas mesmas causas e efeitos desse desemprego inesperado, sem conseguir (ou querer) juntar dois e dois.

Filed under: Economia, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. […] 2 + 2 = 0 Share this:Gostar disto:GostoBe the first to like this artigo.   […]

  2. […] na semana passada Gaspar considerava o mesmo desemprego preocupante e inesperado. Desde então já se arranjou uma solução: dizer aos […]

  3. […] Mais uma vez é bastante evidente que, em termos de emprego, o modelo económico usado pelo governo não funciona ou, na pior das hipóteses, para além de provocar o desemprego em massa, depende disso para funcionar. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like this artigo. […]

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