The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Brandos Consumos

Ao fim da manhã em Santa Apolónia, a caminho do Porto, entrei no Pingo Doce da estação com mochila às costas e arrastando a mala de rodinhas a rebentar de tão cheia. Mal entrei, arrependi-me. Na primeira caixa, um indiano aguardava a sua vez ao lado de oito cestas de mão alinhadas umas atrás das outras. Nas caixas seguintes ainda era pior. Eu só queria umas barras de cereais para a viagem. Não fazia ideia da promoção e assumi que era gente a fazer compras para o almoço. Saí imediatamente, alçando a bagagem sobre os carrinhos de compras.

Já no comboio fui lendo sobre a promoção, os seus objectivos e as suas consequências. Para além de tudo o que já foi dito, só posso concluir que até na matéria de eliminar feriados o Estado é bem mais eficaz que os privados. Simplesmente apaga-os, enquanto Soares dos Santos, de uma assentada, conseguiu destruir completa e irremediavelmente o Dia do Trabalhador, humilhando os sindicatos, intimidando os seus próprios funcionários e reduzindo os seus clientes a uma turba.* Se alguém tivesse feito o mesmo a um qualquer feriado religioso e às crenças nele celebradas, seja qual fosse a religião, neste momento (e na melhor das hipóteses) estaria preso. Mas como é só o Dia do Trabalhador…

Naturalmente, a opinião ultraliberal diverte-se com o facto da multidão preferir ir – “estoicamente” – dar encontrões e facaditas para equilibrar o orçamento familiar do que ir manifestar-se para a rua, numa “vergonhosa traição à classe, numa cedência inadmissível à alienação consumista e ajudando o infame capitalismo a mostrar que é possível a confluência de interesses entre classes ditas antagónicas. Não sei se estaremos perante a verdadeira concertação social, mas isto é de facto hilariante.”

“Hilariante”, de facto – não que a piada seja nova. Sempre foi possível demonstrar a inferioridade moral das classes mais desfavorecidas. Nos velhos tempos bastava atirar umas moedas pela janela da caleche. Agora, basta um investimento inicial de cem euros por parte do pedinte para ter acesso à esmola.

Mas também é provável que este tenha sido o nosso primeiro motim de consumo, seguindo na esteira dos que ocorreram em Londres no ano passado. O padrão é o mesmo: consumo violento, aproximando-se à pilhagem, como consequência e substituição de uma acção política. Tanto se faz equivaler democracia e consumo que os dois acabariam inevitavelmente por se confundir. Enquanto motim político, este só passa desapercebido nem tanto pela sua relativa brandura mas pelo seu instigador ter sido o grande capital. Tivesse sido organizado nas redes sociais, por gente anónima a querer uma televisão, umas fraldas ou uma cafeteira lá para casa, já estaríamos a ver voar pela janela mais uns tantos dos nossos direitos.

*Apropriadamente comparada a Zombies.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise,

8 Responses

  1. Andrev87 diz:

    MUITO BOM! Não é preciso acrescentar mais nada.

    cumprimentos Mário Moura

  2. enfermeiroUK diz:

    Caro Mário Moura, discordo de tudo o que escreveu. Porque assume que quem foi ao Pingo Doce, foi pedir “esmola”? Porque assume que é algum género de “classe inferior”? Perante tantos comentários de pseudo-intelectuais, só gostaria de lembrar que noutros países há eventos semelhantes (veja-se o caso de iPhones, livros, lojas de roupa, Black Fridays, e muitos outros). Serão todos pedintes? Ou em Portugal os clientes que foram ao Pingo Doce são pedintes, e se fosse noutro país já não eram. Eram simplesmente pessoas normais que aderiram a uma promoção.

    Em relação ao Feriado, recordo que o Continente também estava aberto, assim como muitas outras empresas, policias, farmácias, hospitais e por aí fora. Ou será que o país parou e só ficou o Pingo Doce aberto.

    Parece-me que o senhor, assim como muitos intelectuais de TV só vêm o que querem ver.

    • Já me tinha esquecido que na blogosfera é preciso identificar bem o sarcasmo,* caso contrário somos mal interpretados. Para que conste, a passagem em que falo de pedintes é uma resposta à citação oriunda do Blasfémias, onde – só para lembrar – se acha hilariante que as pessoas troquem os seus princípios por dinheiro, tratando-as efectivamente como pedintes.

      Quanto ao resto dos seus argumentos, experimente ler o texto que escrevi a seguir sobre o mesmo assunto.

      *sarcasmo
      (grego sarkasmós, -ou)
      s. m.
      Ironia** amarga e insultuosa. = ESCÁRNIO

      **ironia
      (latim ironia, -ae, do grego eironeía, -as, dissimulação, ignorância)
      s. f.
      1. Expressão ou gesto que dá a entender, em determinado contexto, o contrário ou algo diferente do que significa.
      2. Atitude de quem usa expressões ou gestos irónicos.
      3. Sarcasmo.
      4. Acontecimento ou resultado totalmente diferente do que eram as expectativas (ex.: ironia trágica).***

      ***Tentar usar sarcasmo na blogosfera.

  3. enfermeiroUK diz:

    Não, não é na blogosfera que é preciso identificar bem o sarcasmo. É nos seus textos!

  4. enfermeiroUK diz:

    Muito obrigado! Tenho um enorme respeito por si, e aceito os seus cumprimentos com gratidão!

  5. Kawazaki John Wayne diz:

    Nacionalizem-se as dores de cotovelo
    Todos as ideologias pretendem um equilibrio na sociedade. Mas como se propoem a atingir esse equilibrio?
    Os socialistas pretendem que os ricos se tornem pobres e os liberais que os pobres se tornem ricos. Afinal qual a ideologia mais responsável? Afinal que comprimido nos fará esquecer a Coreia do Norte e Cuba? Vive-se bem lá não?

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