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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Turismo Infinito

Uma das vantagens de visitar outra cidade enquanto turista é a de ver melhor as nossas próprias cidades enquanto um. Barcelona, por exemplo, é uma cidade principalmente turística, com milhares de visitantes a andarem de um lado para o outro pelas ramblas, pelas ruelas, a pé, de bicicleta, de metro. Cada cantinho tem o seu café, o seu restaurante, a sua tasquita urbana para todos os gostos.

A própria arquitectura tem uma coerência antiga que não é acidental, e que é visível mesmo nas casas novas, onde é mantida de um modo tosco e superficial, apenas para não destoar. É uma cidade quase monocromática, em tons de terra seca, onde o requinte está na textura e nos baixos relevos. Mesmo o modernismo é por aqui uma coisa mais orgânica, e nem falo de Gaudi (que mal cheguei a ver) mas de coisas mais simples como este tecto ondulado em tijolo no edifício da Caixaforum, que a sinalética identificava como “modernista”, uma surpresa para quem se habituou a ângulos rectos e paredes de vidro, como os do pavilhão olímpico de Mies Van Der Rohe, mesmo do outro lado da rua e perfeitamente visível do terraço.

Mesmo esse pavilhão, que à distância parece um modernismo genérico, é animado pelas texturas ricas e coloridas dos materiais, das grandes lages cortadas e colocadas de modo a formarem padrões simétricos como os do chão de uma igreja.

Quanto ao design vernacular, é comum verem-se sinais pintados à mão numa letra serifada de desenho formal mas excêntrico, tanto em carrinhas como sinais de trânsito como em anúncios de imobiliária, com a pincelada grossa a ver-se e jogando muito bem com a arquitectura habitual, prédios de aspecto quase pombalino mas castanhos e texturados, graças a estuques, tintas, diferentes modos de rematar pedra ou tijolo.

Dizia ao começo que ver uma cidade enquanto turista nos permite ver as nossas próprias do mesmo modo e, por comparação com o Porto, percebe-se o que correu melhor ou pior por aqui. Em Barcelona é possível ir a uma grande quantidade de museus ou lugares de interesse a pé ou nas bicicletas de aluguer, que têm as suas ciclovias próprias e enxameiam todas as praças, passeios e ruas. Alguém que saia de um avião tem todo o tipo de transportes à sua disposição, incluindo autocarro e metro, que ao fim de semana funciona a noite toda. Por aqui, pelo contrário, a mobilidade não é fácil: os exlibris culturais da cidade, como Serralves ou a Casa da Música, ficam relativamente longe do centro, que se resume assim a comes e bebes. Para um turismo mais rico, seriam necessárias mais instituições permanentes com uma programação segura perto do centro, que se pudessem visitar sem planear com avanço ou perder com a isso a maioria de um dia.

(Todas as fotos tiradas pela Susana Gaudêncio).

 

 

 

 

 

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, viagens

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