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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design: Identidade e Instituição

É habitual proclamar-se o design como uma actividade universal, praticada desde a autora dos tempos, sempre que alguém concebe um instrumento, uma casa ou a configuração precisa de uma mensagem, mas este chavão esbarra de frente com o modo como o design é realmente praticado. Por exemplo, apesar da suposta universalidade, assenta num treino particular, ensinado em universidades. Por vezes, defende-se mesmo que só pode ser exercido por profissionais credenciados, mas credenciados a fazer o quê, exactamente? A tal actividade universal, que já é praticada desde a aurora dos tempos, muito tempo antes de haver cursos que a ensinam ou uma palavra para a nomear?

Pode-se resolver a contradição dizendo que o design é realmente uma actividade universal e que os designers são apenas os seus praticantes mais especializados, os que ganham a vida a fazê-la. Poderíamos comparar assim o design a uma língua: quase toda a gente a fala, mas nem toda a gente ganha a vida com isso (como um actor, um apresentador de televisão ou um político).

Um designer não aprende na escola apenas um conjunto de estratégias formais ou técnicas mas também uma certa maneira de as exercer num contexto profissional. Basta ver como se pensa no design como um serviço exercido em função de um cliente e como, mesmo num ambiente formativo, se dedica muita atenção à apresentação de trabalhos perante um público, à sua discussão com clientes, à orçamentação, ao trabalho dentro de uma hierarquia. Por outras palavras, boa parte daquilo que os designers aprende na escola são as instituições do design.

Dessas instituições fazem parte certos modos de lidar com as formas, mas também certas maneiras de organizar o trabalho, certas ferramentas, bem como os locais onde é mais legítimo exercer o design – num atelier ou num estúdio, se possível, mas um pouco menos em casa ou dentro de uma empresa de outra área. Por aqui se vê que se aprende também uma identidade, uma certa maneira de a construir: treinar o design é também treinar para ser um designer.

A construção de um portfolio ou de uma identidade gráfica pessoal não é apenas uma maneira de demonstrar competências a potenciais clientes mas uma maneira de construir uma identidade pública, exercida em relação a outras identidades públicas. E quando um designer cria a identidade gráfica de um cliente, está a tomar na construção de uma identidade empresarial ou profissional.

Mas o ensino da identidade do design e das suas instituições tem também os seus problemas. Tende a favorecer certas identidades e práticas em detrimento de outras. A ideia de um design exercido para um cliente exclui subtilmente a ideia do designer como um funcionário dentro de uma firma que pode não ter a ver com design: a relação de um designer que trabalha dentro de um jornal só por uma analogia obedece ao modelo da relação com um cliente.

A ideia do design exercido em estúdio ou em atelier exclui a possibilidade de um design exercido em casa – o que pode dificultar o seu exercício por parte de designers que queiram criar um filho sem terem que abdicar da sua vida profissional para isso. Na série de televisão Mad Men, por exemplo, mostra-se uma época onde a liberdade de circulação era limitada aos homens que se deslocavam livremente ao longo do dia entre as suas casas nos subúrbios e os seus escritórios, estando os movimentos das mulheres limitados a cada uma destas áreas, só sendo promovidas de uma área a outra através da sua relação com um homem, passando de secretária a esposa ou amante.

Resumindo, existe mais do que uma identidade possível para o design, e existem inúmeros enquadramentos institucionais para o seu exercício. Numa época de crise, deveríamos estar talvez mais atentos a essas possibilidades. Não se trata de tentar eliminar a ideia do design como uma actividade empresarial mas de perceber simplesmente que não é universal nem inevitável.

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Filed under: Cliente, Crítica, Cultura, Design, Prontuário da Crise

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