The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Snack-Bar

Hoje em dia, a própria expressão “Snack-Bar” é nostálgica, lembrando gelados em copo de vidro alto com muito Chantilly, bitoques no prato mal passados debaixo de um ovo estrelado, a meio de uma abundância de batatas fritas bem secas.

Se calhar nunca foi de outro modo: ainda nos anos 50, Sena da Silva descrevia a clientela dos Snack-Bars como tendo uma clara “formação cinematográfica” numa das legendas deste artigo da revista Arquitectura,* mais um ensaio visual que uma recensão, com fotografias cheias de movimento e personalidade, em particular o retrato da rapariga da página da direita, que nos põe a cismar quem poderia ser – alguém conhecido do fotógrafo?

O Snack-Bar era portanto um formato importado, nem tanto da América ou até da língua inglesa, como do ecrã. Era ao balcão em bancos altos e cromados que os amores dos James Deans e das Natalies Woods resultavam ou se despenhavam em chamas. Os primeiros nomes que lhes deram por aqui assumiam perfeitamente essa origem: Pam-Pam, Tique-Taque, Pisca-Pisca, Zigue-Zague, Pica-Pau, Buzina, nomes que pareciam ter saído de uma música de Cole Porter (um deles chamava-se precisamente Noite e Dia):

like the beat, beat, beat of the tom tom
when the jungle shadows fall
like the tick,tick, tock of the stately clock
as it stands against the wall

like the drip, drip drip of the rain drops
when the summer showers through
a voice within me keeps repeating 
you, you, you

É pois apropriado que tenha sido Vítor Palla, um mestre da narrativa cinematográfica em outros formatos que não o cinema (sobretudo livros e revistas), com o seu sócio Bento D’Almeida, a trazer o Snack-Bar para Portugal e para as ruas de Lisboa, deixando com isso uma herança ambiental difícil de definir e que seria por vezes reabsorvida pelo cinema. Não é possível talvez olhar para as fantasmáticas gelatarias de João César Monteiro sem a memória evocativa do Snack-Bar e dos seus gelados, ou para os centros comerciais de temática tropical do último filme de Miguel Gomes, com todas as suas promessas de noite, exotismo e sons tribais, sem nos lembrarmos dos nomes dos seus antepassados não muito distantes.

*É provável que este artigo, e os seus ritmos de cinema, embora escrito por Sena da Silva, tenha sido paginado por Vítor Palla, na altura responsável pelo grafismo da revista Arquitectura.

(Ficam os agradecimentos à Rita Palma, que teve a sorte e o saber de encontrar esta e outras revistas na Feira da Ladra de Lisboa).

Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, História

One Response

  1. […] gelados é uma espécie de cinefilia, como bem o sabia João César Monteiro ou, antes dele, Victor Palla. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like […]

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