The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Democracia de Treta

Se há coisa que incomoda na política portuguesa é a maneira arrogante com que se vai dizendo tretas atrás de tretas, sem qualquer tipo de relação com a realidade. Este fim-de-semana, por exemplo, vi o excelente documentário “Pare, Escute, Olhe” sobre o fecho da linha do Tua e o seu impacto na população da zona. A dada altura, um deputado ironizava que quando a linha tinha sido fechada não tinha visto ninguém a protestar. A imagem seguinte mostra a imagem de arquivo de um grupo numeroso de pessoas a protestarem esse fecho.

Este fim-de-semana ainda, o cronista João Pereira Coutinho ironizou que os muitos prémios ao cinema português não se traduzem em gente disposta a investir nesses filmes, ignorando muito obviamente que estes filmes já foram produzidos quase exclusivamente com investimento privado e público (embora estrangeiro) – o problema não é o cinema português andar a mendigar apoios ao Estado, mas o Governo, sem ter feito nada por isso, querer colar-se a um caso de sucesso para o qual nada contribuiu.

Finalmente, na semana passada o próprio Passos Coelho lamentou que “a generalidade dos nossos jovens licenciados, que têm hoje um nível de qualificações muitíssimo mais elevado do que alguma vez aconteceu na história portuguesa, prefiram ser trabalhadores por conta de outrem do que serem empreendedores”, quando segundo a OCDE somos o quarto país do mundo onde há mais gente a criar as suas próprias empresas, a maioria delas de uma pessoa só.

Quase se podia desculpar a aparente ignorância do Primeiro Ministro, mas os números são de há cinco anos. Não são, nem deviam ser, uma novidade. Se tudo isto demonstra alguma coisa, é uma tendência persistente, arrogante, para ignorar os factos que sejam inconvenientes. Uma tendência preocupante porque afecta a própria natureza da democracia: esta não assenta a sua legitimidade numa votação, mas principalmente na qualidade da discussão que a antecede. É aí que se expõem os factos e as opiniões sobre eles construídas.

Neste momento, governa-se pelo chavão e o pior deles é a ideia que não importa o que se diz antes, durante ou depois de se ter sido eleito, apenas ter a legitimidade da eleição, que depois pode ser usada para tudo e mais alguma coisa. Nem se trata sequer de mentir, mas apenas de dizer não interessa o quê, preenchendo o tempo até à disciplina de voto da maioria aprovar o que for preciso ou o que mandam lá da Europa.

Filed under: Design

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