The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Liberdade de Pressão

Nos últimos anos, tornou-se comum ver uma livraria carismática fechar, apenas para, uns meses e umas tantas obras depois, reabrir como bar ou restaurante, mantendo algumas das prateleiras originais e meia dúzia de livros na montra, e chamando-se, com ironia cuidadosa, “Livraria”. Às vezes, dá também a sensação que aconteceu o mesmo com a nossa Justiça, que encerrou para obras, reabrindo como outra coisa qualquer, embora mantendo com ironia o nome de “Justiça”.

Esta semana, por exemplo, o blogue Precários Inflexíveis foi alvo de uma providência cautelar por parte de uma empresa de marketing no sentido de eliminar os comentários a um post onde tinha sido feita uma denúncia a outra empresa de marketing, “alegando que os mesmos lhe tinham criado imensas dificuldades no recrutamento de novos profissionais.”

Pode-se verificar essa fundamentação consultando a sentença, onde se lê que o funcionamento da dita empresa depende de uma elevada rotação de funcionários, que obriga a acções contínuas de recruta. Depois de publicada a denúncia, o número de candidatos diminuiu drasticamente, chegando muitos a cancelar entrevistas já marcadas.

Assim, a providência cautelar pedia a eliminação de todos os comentários onde as duas empresas eram referidas invocando o seu “bom nome e honra”. O tribunal acabaria por considerar “excessivo o pedido de eliminação dos comentários mas decidiu a ‘suspensão ou ocultação’ dos mesmos, determinando uma multa de 50 euros por cada dia de atraso no cumprimento da decisão.”

É caricato que se invoque o bom nome de uma empresa que aparentemente muda o seu nome com frequência, e que se fale de honra a propósito de um modelo de negócio que, para funcionar com eficácia, depende das consequências das suas acções não serem conhecidas.

É caricato também que, para justificar uma sentença onde se fala do bom nome e da honra de uma empresa, seja preciso fazer equivaler  os direitos de uma empresa aos de um indivíduo, com evidente prejuízo destes últimos – mas que interessa hoje em dia isso? Se o nosso governo e boa parte da nossa opinião pública acredita que um indivíduo melhora tornando-se numa empresa de uma pessoa só, porque não haveria uma empresa ter os mesmos direitos que uma pessoa? Naturalmente, uma pessoa que paga menos impostos, que tem mais recursos e apoios, mas ainda assim uma pessoa, querida, frágil e fofinha. Qual seria a alternativa? Defender que as pessoas no fundo até são pessoas? Ridículo!

Filed under: Prontuário da Crise

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