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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“A Saída para a Crise é o Design”

Dentro do quinhão português da crise, o design tem tido um lugar de destaque, sobretudo pela quantidade de designers no mercado, que parece indicar que também há demasiados cursos de design, todos eles a sugarem duma forma ou outra recursos ao Estado, e entupindo ainda mais o país de jovens licenciados, muitos deles desempregados, subempregados ou a estagiar sem ganharem um tostão durante meses ou até anos.

A situação não aflige apenas o design gráfico, mas espalha-se ao design de produto, de interiores, de equipamento, de moda e à arquitectura. Muitos dos licenciados destas áreas acabam por se dedicar ao design gráfico por expediente, que acaba assim por ser uma espécie de secretariado genérico, com uma ligeira ênfase no lado visual da coisa e a vantagem de poder ser exercido a partir de casa, em computador próprio – mão de obra com ferramentas e custos de local de trabalho incluídos, portanto.

Por outro lado, o design é também uma actividade de estrutura empresarial, mas que parece envergonhada disso mesmo, preferindo trabalhar para clientes da cultura ou do estado, que lhe trazem mais liberdade, bem como prestígio junto dos outros designers. Alguns acreditam mesmo que o trabalho para este género de cliente deveria ser desencorajado em nome de uma ligação maior à indústria, comércio ou até agricultura.

Percebe-se assim que o design é visto, mesmo por muitos dos seus praticantes, como uma vítima ou até um protagonista das más estratégias que nos trouxeram esta crise: a dependência do Estado; o investimento na cultura em detrimento de sectores mais produtivos; um ensino pouco sintonizado com as necessidades do mercado; etc.

Contudo, também é possível ver a situação do avesso. Desde há décadas, praticamente desde o seu começo em Portugal, que os designers são treinados para pensarem em si mesmos como profissionais liberais, essencialmente empresas de uma pessoa só, mesmo quando trabalham inseridos em estruturas de grandes dimensões. Para manterem esta identidade, não podem pensar como trabalhadores assalariados, mas como empresários a título individual – passando recibos verdes, mesmo em situações onde seria mais vantajoso um contrato de trabalho; preferindo organizar-se numa ordem em vez de um sindicato; etc.

Por outro lado, quando um designer trabalha para o Estado, produzindo uma identidade para um evento ou para um organismo estatal, costuma aplicar modelos de identidade empresarial. Vai assim tornando, logo a logo, a imagem do Estado na de uma empresa, privatizando-o progressivamente aos olhos do público – o que se vende ao certo numa repartição, a que por conveniência se chama “Loja do Cidadão”, excepto a ideia que a cidadania se exerce melhor num centro comercial?

Do mesmo modo, na cultura, a necessidade de contratar designers ou arquitectos, sobretudo que tenham alguma visibilidade mediática, funciona como uma maneira de demonstrar uma boa identidade empresarial por parte das instituições, que a torne atraente ao investimento privado. Parecer uma empresa é, neste momento, a melhor maneira de parecer que se sabe o que se está a fazer.

É claro que, em muitos casos, esta crise foi provocada pelos mercados e por empresas que na melhor das hipóteses o fizeram por engano e, na pior, por interesse. E que se está a tentar resolvê-la tornando as más decisões privadas num problema público, que por sua vez está a ser resolvido em parte por uma desvalorização dos custos do trabalho, com uma flexibilização dos direitos através da ideia que um trabalhador deve ser sobretudo uma espécie de empresa de uma pessoa só, trocando vínculos por mais mobilidade. E como é evidente cortando na cultura que não seja suficientemente empresarial.

Ou seja, o problema não é tanto o design ser uma vítima das estratégias que nos trouxeram a esta crise, mas a prova que as estratégias usadas para resolver esta crise são as mesmas que a provocaram.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Prontuário da Crise

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