The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Fantasma

A rua onde vivo no Porto não tem muito que se lhe diga. Começa como um afluente discreto da Costa Cabral, demasiado longe do centro para que alguém vá ali sem  um propósito definido. Quando ainda existia o velho estádio das Antas, era suficientemente perto para que os adeptos lá estacionassem os carros, conseguindo chegar por vezes às filas duplas numa rua que na parte mais larga não deve chegar aos dez metros. Com o novo estádio, só voltou a conhecer animação com as obras do metro, nem tanto porque haja por aqui alguma estação, mas por causa das betoneiras que passavam diariamente e cujo peso fazia ondular os paralelos em cristas altas, que em alguns pontos da rua impediam mesmo os moradores de estacionarem nas suas próprias garagens.

Ao longo das suas poucas centenas de metros, a rua desenvolve-se numa sucessão de vivendas oscilando entre um modernismo tosco de ângulos rectos mais ou menos amarrotados, em betão picado pela hera e pintado de cores saturadas, malva, grená, e um estilo mais ornamentado, mais riquinho, a lembrar os ângulos mais parisienses da Avenida dos Aliados. Pelo meio, uns tantos prédios de habitação recentes e mais feios, entre eles o meu. Ao fim, uma fábrica abandonada, de vidros partidos e portas emparedadas, cuja chaminé  foi incluída por motivos decorativos no jardim do meu prédio. Entre as vivendas do lado Sul da rua é possível ver os pavilhões e as chaminés do Conde Ferreira, um hospital psiquiátrico de ambiente ajardinado e pastoril, rodeado de campos e estufas.

Como eu dizia: nada que interesse demasiado, se não fosse pelo “fantasma”. Há um ou dois anos fiquei a saber que uma das casas mais importantes do modernismo português, do arquitecto Viana de Lima, era conhecida por “Casa Honório de Lima”. Tinha esse nome por ter sido construída na rua portuense do mesmo nome – ou seja: a minha. Pensei que fosse uma das vivendas modernistas mais ou menos toscas, mas pouco depois soube que tinha sido demolida. Especulei que muito provavelmente o meu próprio prédio era o culpado. A fotografia que entretanto encontrei não esclarecia.

Comecei a imaginar que, num universo paralelo (talvez até o do Fringe), aquela casa ainda existia, e quem chegasse ao Porto num dirigível Low Cost poderia talvez avistá-la ao longe. Talvez fizesse parte de um Porto inteiramente modernista, uma expansão daquela curta fatia da Passos Manuel onde ainda se aninham as fachadas opostas da garagem Art Deco do Maus Hábitos e o Coliseu.

Entretanto, descobri que o culpado da demolição não era o meu prédio mas os cafézitos, lojitas e laboratórios de análises ao começo da rua. Não é grande consolo.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, História

2 Responses

  1. grotesca diz:

    não deu conta, nessa rua, de um senhor, careca, de fato cinzento e chapéu? 😉

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