The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Anti-Heróis

Numa altura do ano em que, por obrigação, me dedico dias a fio à indústria febril da leitura (de papers, de teses, de trabalhos e de mails), encontro algum consolo a ler coisas mais juvenis, lidas e relidas desde o tempo em que era eu a estudar para exames e não a corrigi-los.

É nesta altura que releio os Tintins e o Spirous, o Fantasma ou os velhos Disney Especial, organizados por temas, Coleccionadores, Robôs, Cientistas, recolhendo histórias de todo o bestiário da Disney, e onde era possível reconhecer aqui e ali o estilo inconfundível de Carl Barks, de Floyd Gottfredson, de Al Taliaferro ou de Carpi. Mesmo sem conhecer a assinatura dos autores, escondida debaixo da assinatura-logo do próprio Disney era possível distingui-los facilmente. A diferença entre o traço mais anguloso dos americanos e a elasticidade quase psicadélica dos italianos também era óbvia, em especial em histórias onde, recorrentemente, os heróis abandonavam a cidade dos Patos para irem visitar Roma, Veneza, o Vesúvio ou o Adriático.

Não foi certamente acidental que Donald tenha iniciado a sua carreira de Superpato ao descobrir o fato e as engenhocas de um gentleman-thief chamado Fantomius numa Vila abandonada. A designação evoca a Itália enquanto o nome do antigo dono evoca claramente o de Fantômas, tal como Paperinik, o nome original em italiano do Superpato, evoca o de Diabolik, um anti-herói da banda desenhada italiana que se dedicava friamente a roubar, assaltar e a assassinar quem se pusesse no caminho dele.

Não roubava aos ricos para dar aos pobres, mas aos medíocres, corruptos e incompetentes para dar a si mesmo – na Itália da década de sessenta, sem grande fé nos poderosos e nas suas instituições, não admira que aparecessem heróis como este. Não admirava também que as histórias da Disney produzidas em Itália fossem mais negras e os seus personagem mais matreiros e até sinistros.

As aventuras de Diabolik foram adaptadas por Mario Bava ao cinema em 1968, um ano antes da primeira história do Superpato ter sido publicada. O filme é provavelmente a melhor adaptação de uma banda desenhada da época. Visualmente é sofisticado e deslumbrante, cheio de covis futuristas, automóveis esguios e mostradores iluminados por fieiras de luzes coloridas. Sem se levar demasiado sério, não resvala para a auto-paródia de Modesty Blaise ou do Batman da época. Ultrapassa os 007 da altura na maneira como retratava a companheira de Diabolik, Eva, não enquanto uma caricatura mas enquanto alguém tão inteligente e autónomo como o herói.

Para além do Superpato, o filme deixaria um legado longo. Os Beastie Boys usariam planos como base para o teledisco de Body Movin’ que é quase uma versão reduzida – embora vista como num sonho delirante – de Danger Diabolik. O argumentista Grant Morrison far-lhe-ia uma homenagem com a criação de Fantomex, cavalheiro-ladrão cujo nome evoca Fantômas mas cuja roupa e companheira (uma nave chamada E.V.A.) são sem dúvida pisadelas de olho ao anti-herói italiano. Roman Coppola faria uma homenagem quase plano a plano em C.Q.

Danger Diabolik

C.Q.

Porquê esta divagação desde Patópolis ao Superpato, aos vilões-heróis da banda-desenhada italiana, passando pelos Beastie Boys? Porque, tal como na Itália dos anos 1960, também vivemos numa época de falta de fé no poder e nas instituições. Não espanta que se use a máscara de V, outro anti-herói da banda desenhada, nas manifestações, e talvez seja útil lembrar que Superpato foi criado para servir de contraponto ao papel habitual de Donald como um auxiliar subalterno e mal pago do seu Tio rico e austero.

Cada época vai tendo os heróis de que precisa.

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Filed under: Banda Desenhada, Crítica, Cultura, História, Política, Prontuário da Crise, ,

One Response

  1. maria diz:

    Mas que grande avanço..

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