The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Direita-Caviar

Pedro Passos Coelho elogiou esta semana a paciência dos portugueses, por aguentarem as medidas de combate à crise que, curiosamente têm assentado num empobrecimento sistemático de quase toda a gente que ainda pode empobrecer.

Excepto (claro) os que são demasiado grandes para falir, que é como quem diz “demasiado ricos para empobrecer”, argumentando-se que a sua riqueza é o pagamento por ajudarem a criar emprego.

Com o desemprego a passar os 15% e a aumentar, não se pode dizer que estejam a fazer um bom trabalho mas, apesar do mau desempenho, viram o seu salário ser aumentado, os seus impostos diminuídos, e a matéria-prima ficar mais barata (neste caso a mão de obra).

Neste momento chegou-se ao ponto de um dos poucos serviços públicos que o Estado assegura com alegria é pagar a maioria dos custos salariais de empresas como incentivo a que criem emprego, fazendo com isso concorrência subsidiada pelo Estado a empresas que ainda pagam salários decentes. Cria-se emprego assim-assim, destruindo emprego que ainda é mais-ou-menos.

Pode-se argumentar que isto é bom para economia, que aumenta as exportações mas, para o trabalhador comum, que adianta isso se tem uma vida cada vez pior? Para ele, a qualidade da economia mede-se na qualidade do emprego que esta produz e, nesse aspecto, esta nova economia nunca vai ser mais do que uma desilusão. Assenta e vai assentar sempre em salários baixos.

Não adianta, portanto, ter paciência, porque não há luz ao fundo do túnel, pelo menos para a maioria dos portugueses, que vão continuar a empobrecer, cada vez mais desempregados, subempregados ou emigrados. Para os poucos que enriquecem, não é necessária, como é evidente, paciência própria ou alheia.

Assim quando o Primeiro-Ministro elogiou a paciência dos portugueses, D. Januário Torgal Ferreira discordou da melhor maneira possível, perdendo a sua. Foi logo de seguida acusado de receber um salário demasiado alto para que pudesse pedir com honestidade uma sociedade menos desigual. Ou seja, era demasiado rico para defender um salário mais alto para os mais desfavorecidos.

É um argumento classista, fracturante e anti-solidário que defende que só o membro de uma certa classe pode defender com legitimidade os interesses dessa classe. Pode-se dar esmolinhas e elogiar as qualidades morais de quem sofre (a paciência, por exemplo) mas lutar pelos seus direitos e salários já é considerado de mau tom. O mesmo se diz dos dirigentes sindicais, que só o seriam legitimamente se fossem operários fabris a tempo inteiro, trabalhando turnos duplos e ao fim de semana – para a direita, o único dirigente sindical honesto e coerente nunca teria tempo para ser um dirigente sindical.

Para todos os efeitos, D. Januário foi acusado de falta de coerência, de pertencer à Esquerda-Caviar, uma classe cujo maior pecado é usar o seu relativo conforto para tentar trazer o maior número de pessoas possível ao seu nível. A coerência estaria, pelo contrário, do lado da Direita-Caviar, daqueles que acreditam que a única maneira de ajudar os mais pobres é enriquecendo cada vez mais. Nos tempos que correm, “incoerência” é apenas outro sinónimo para “solidariedade”.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. OutofWorld diz:

    Ter emprego passou a ser uma arma de arremesso, ganhar salário justo pelo trabalho efectivo passou a ser uma arma de arremesso, é uma sociedade fraccionada.

  2. Prezado diz:

    Mas a divisão tem funcionado, o português continua a achar que o problema é sempre o outro, mais [inserir defeito] que ele e com um ordenado maior, esses malditos que ganham mais. O apelo à caridade ( chamam-lhe solidariedade, agora ) como programa social é que me deixa doente…

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