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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Democracia a 8 Bits

Para quem a defende, a austeridade não parece ser apenas uma doutrina económica mas também discursiva. Não se trata só de empobrecer os bolsos da maioria mas também a sua capacidade de se manifestar em público.

Isso fica bem claro nos apelos frequentes que se tem feito à paciência e ao silêncio, desde Manuela Ferreira Leite com os seus seis meses de suspensão da democracia, até aos seis meses de silêncio pedidos pelo reitor da Universidade do Porto. Se pensarmos que a democracia é o governo através da discussão e que as votações são apenas a parte do processo onde se escolhem os melhores argumentos, pedir silêncio ou pedir a suspensão da democracia é exactamente a mesma coisa.

Também não é muito diferente argumentar (como Rui Rio fez ainda esta semana) que a democracia consiste em aprovar incondicionalmente tudo o que um sortudo qualquer (neste caso, ele próprio) vai fazer, dizer ou pensar durante os quatro ou cinco anos seguintes, sem qualquer direito legítimo de resposta por parte dos seus eleitores. Por comparação, os seis meses do reitor ou de Ferreira Leite até parecem um bom negócio (se calhar até estavam a defender mais democracia e não menos).

É claro que o discurso que sustenta a democracia não é apenas o que se diz, mas o que se escreve, o que se imprime, o que se pinta e o que se posta. Tudo o que se diz com o fim de ser tão público quanto seja necessário. Para um mínimo de discussão democrática bastam as mesmas ferramentas que já eram usadas na Grécia antiga ou em Roma – falar diante de uma multidão ou deixar mensagens escritas numa parede para que todos as vejam. A democracia está assim marcada nos próprios espaços urbanos onde é exercida. É visível nos anúncios públicos, nos cartazes, nos murais e nos grafittis, e não apenas na televisão, na internet ou nos jornais.

Antecipando a visita de Cavaco Silva à Mouraria, a Câmara de Lisboa de António Costa esforçou-se para maquilhar à pressa os problemas mais evidentes do bairro, escondendo as janelas entaipadas e emparedadas de prédios devolutos atrás de painéis brancos de ar mais luminoso, mas também apagando murais como o que ilustra este artigo, que continha uma mensagem política clara, muito obviamente relacionada com o espaço onde existia.

É evidente que fabricar à pressa fachadas para disfarçar o trabalho que não se fez perante visitantes ilustres é uma das tradições mais antigas da política – vejam-se as Aldeias de Potemkin. O que torna o caso da Mouraria interessante (no pior sentido) é a sua ilustração clara que a simples presença de um político pode apagar todos os traços da discussão democrática de um lugar, como um cursor no Photoshop que faz o sítio onde está perder definição, pormenor, ficando cada vez mais pixilado, mais parecido com o cenário de um jogo de computador dos anos 80. Mais lustroso, talvez, mas menos democrático com toda a certeza.

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Filed under: Arquitectura, censura, Crítica, Cultura, Design, Não é bem design, mas..., Política, Prontuário da Crise

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