The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fim de Temporada

Às vezes fico com a sensação que já não me é possível escrever sobre nada que não seja político, mesmo sem querer. Há uns textos atrás, por exemplo, falava sobre a antologia da Afrodite, De Fora Para Dentro, onde encontrei excertos do diário do libertino inglês William Beckford contando a sua visita a Portugal, em particular a descrição de uma procissão a que assistiu de uma varanda em frente à Sé Patriarcal de Lisboa numa quinta-feira, dia 7 de Junho de 1787.

Chamei a atenção para esse pormenor porque a casa onde fico quando vivo em Lisboa também dá para os degraus da Sé e, na quinta-feira passada, também dia 7 de Junho,  assisti também eu à procissão do Corpo de Deus da minha varanda, exactamente 225 anos depois de Beckford o ter feito.

Não sou particularmente religioso mas não consigo deixar de me comover um pouco ao saber que o feriado a que assisti foi talvez o último do género. Uma tradição que começou séculos antes de Beckford  ter nascido terminava ali à minha frente. Nos tempos que correm, a sensação diária que tenho é de fim. Ou antes: nem sequer de fim, das coisas acabarem, mas sem uma conclusão decente, a versão em escala maior daquela desilusão que se tem quando a nossa série de televisão favorita foi cancelada a meio da temporada, sem que nada tenha ficado resolvido ou revelado. Se “Apocalipse” significava originalmente “Revelação”, este suposto apocalipse de 2012 tem sido uma desilusão completa.

Deixo aqui parte da descrição de Beckford:

“Quinta-feira, 7 de Junho

Mal pude dormir por causa do repicar dos sinos, o rufar dos tambores, e o toque dos clarins que principiaram logo de madrugada, em honra do pomposo festival do Corpo de Deus. Tinha preferido ficar em casa escrevendo-te e lendo Camões. Mas haviam-me contado tais maravilhas da procissão em honra deste glorioso dia que não resisti ao incómodo de sair para ver com os meus próprios olhos. As ruas do bairro em que habito, bem como as daqueles que eu atravessei a caminho da Patriarcal, estavam completamente desertas. Dir-se-ia que a peste tinha varrido a Grande Praça e até mesmo as movimentadas cercanias da Casa da Índia e da Bolsa, pois, inclusivamente, os vadios, os párias e os mendigos cobertos de vermina e na última fase da decrepitude tinham abalado para o teatro da festa. Apenas se viam miseráveis rafeiros farejando os monturos pelas ruas abandonadas e algumas velhas paralíticas. Meia dúzia de ranhosas crianças que choravam porque as tinham deixado em casa, eis tudo quanto eu vi nas janelas sem fim.

Já ouvia o murmúrio das vozes da multidão apinhada em torno da Patriarcal antes de lá chegar. Avançámos com grande dificuldade entre filas de soldados, formados em linha de batalha, e depois de contornarmos um negro recanto ensombrado pela alta mole do edifício do Seminário, junto à Patriarcal, descobrimos casas, lojas e palácios, tudo transformado em pavilhões e armado de alto a baixo de damasco vermelho, de tapetes de variegadas cores, de colchas de cetim e de cobertas de cama franjadas de oiro. Julguei-me no meio do acampamento do Grão Mogol. A frontaria da grande igreja apresentava-se magnificamente engalanada. O vasto lanço de escadas estava guarnecido pelos archeiros da Guarda Real com os seus ricos uniformes de veludo multicor e uma infinidade de clérigos de cruz alçada e estandartes em punho, formando uma das mais teatrais perspectivas que eu ainda contemplei. Bandos de frades macilentos, de hábitos brancos, pardos e negros, perpassavam, continuamente, como se fossem perus a caminho do mercado.”

© Fotografia Susana Gaudêncio

Filed under: Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. carlos b diz:

    Caro Mário

    Desculpa lá desiludir-te neste teu discorrer nostálgico, mas Beckford há 225 anos não assistiu à procissão do Corpo de Deus em nenhuma varanda próxima daquela onde tu assististe este ano, mas sim do outro lado da colina em São Vicente.

    Entre 1773 e 1792, o templo referido como “a Patriarcal”, em Lisboa, não era a actual Sé, mas sim a Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora.

    Isto devia-se não só à destruição total da Basílica Patriarcal ou Capela Real Patriarcal do Paço da Ribeira, recentemente construída ali à Rua do Arsenal perto do paço, com o terramoto de 1755, como também aos incêndios que posteriormente decorreram, em 1769, no templo recentemente construído onde agora é o Jardim do Príncipe Real, e no mosteiro de São Bento, em 1771, para onde tinha passado provisoriamente.
    Daí que tenha sido transferida para São Vicente (passando os monges para Mafra) ficando o edifício do mosteiro a ser partilhado pelo palácio do patriarca e igualmente pelo Seminário Patriarcal, escola onde se formavam os músicos da Patriarcal.
    Posteriormente a Patriarcal ainda passou para a Ajuda para perto da Real Barraca de onde sairá finalmente para a Sé em 1834.

    Foi por isso de uma varanda fronteira ao largo do Mosteiro que Beckford assistiu em 1787 à procissão, tal como fora aí que a 28 de Maio pela primeira vez tinha visto (e ouvido) Gregorio Franchi, jovem músico da Patriarcal, que posteriormente passará o Verão com ele, “acompanhando-o” como secretário e amigo até morrer, em Inglaterra, em 1828.

    E sim, se estás interessado em Beckford aconselho-te a leitura, não apenas desses excertos, mas da versão completa dos Diários, quer este quer os da viagem à Batalha e Alcobaça de 1794 (ou mesmo o resto da obra dele, as cartas de “Life at Fonthill” são igualmente divertidas nas descrições descomplexadas da sua vida, Vathek é mais gore que qualquer coisa produzida actualmente em Hollywood, e as “Biographical Memoirs of Extraordinary Painters” perfeitamente inventadas) e já agora se possível em inglês, que nas traduções perde-se a lot of wit.

    No entanto sem sombra de dúvida que assistir a algo que termina assim, qualquer que seja a varanda, é triste, mas os tempos têm sido tristes ultimamente…

    um abraço,
    carlos b.
    (sim, os meus conhecimentos vão para lá da distinção de sabor dos queijos e da história da marmelada)

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