The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Da Criação de Emprego

De todos os moralistas ingleses (e não são poucos), não deve ter havido um que se tenha divertido mais (ou que tenha escrito mais histórias de detectives) do que Gilbert Keith Chesterton.

O seu livro mais conhecido, O Homem Que Era Quinta-Feira  (1908), é talvez a mais perfeita história de espiões inglesa, na qual um jovem poeta é recrutado como agente-secreto da Coroa na luta contra uma organização de anarquistas dirigida por um misterioso vilão cujo nome de código era Domingo. Um pouco como se James Bond também se dedicasse aos versos e usasse um cachecol.

Chesterton, tal como Ballard, tinha um talento para revelar os aspectos fantásticos e mirabolantes do quotidiano. A propósito de um vulgar bloco de apartamentos, concluía por exemplo que havia “qualquer coisa de inteiramente Garagantuesca na ideia de economizar espaço empilhando casas umas em cima das outras, portas da frente e tudo.”

Era numa destas “imensas colmeias escurecidas” que ficavam os escritórios do Clube dos Negócios Estranhos, ao qual, em 1905, dedicou um livro de contos à primeira vista desconexos entre si. Escondido longe das atenções como “um fóssil numa altaneira falésia de fósseis”, esta exclusiva organização reunia pessoas que: a) tivessem inventado a sua profissão; e b) esta fosse a sua principal fonte de rendimento.

Cada um dos contos do livro revelava uma destas novas profissões, em geral através dos seus efeitos numa vítima insuspeita. As estrambólicas ameaças de morte que um certo Major Brown recebia, por exemplo, vinham a revelar-se apenas o resultado dos serviços de uma firma que produzia aventuras por encomenda. Alguém fazia boa impressão numa festa graças ao serviço de uma firma que alugava interlocutores irritantes que se deixavam derrotar em discussões. Um serviço de empatas profissionais podia ser usado para atrasar rivais. Um agente imobiliário vendia casas em árvores. Etc.

Vendo bem, trata-se de inventar empregos como um subgénero literário, uma coisa muito próxima do actual empreendedorismo. Lendo o P3, por exemplo, fica-se igualmente fascinado com as novas e mirabolantes empresas que são anunciadas todos os dias. Desde as tasquitas urbanas temáticas até às conserveiras gourmê, passando por arte em rebuçados ou pelos vibradores design, é toda uma plétora de novos negócios. Se no tempo de Chesterton inventar uma profissão era raro, agora tornou-se no pão-nosso de cada dia – um lugar comum.

Muitas vezes, os hábitos, rituais e tecnologias mais populares, antes de se tornarem completamente obsoletos, ganham um último folêgo enquanto arte experimental. era previsível portanto que numa época em que a própria ideia de emprego se vai tornando precária, a criação de emprego se vá tornando numa forma de arte, numa estética.

Filed under: Crítica, Cultura, Não é bem design, mas..., Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. […] O lado mais comum mas também mais invisível desta cultura do empreendedorismo é uma estranha literalização da ideia de criação de emprego. Onde não há condições reais para criar emprego, a criação de emprego torna-se numa […]

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