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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Época de Avaliação

Para quem frequenta o mundo académico, a época de avaliações é também uma época de auto-avaliação. Nesse aspecto, não há muita diferença entre um professor e um aluno. Se a este último é atribuído um número aos seus esforços, uma nota, ao primeiro cabe decidir qual os critérios da atribuição.

Assim, no meu caso, esta é a altura do ano em que me pergunto o que é o design. Como é evidente, a resposta vai mudando com o tempo.

Neste momento, vejo-o como uma actividade unida muito directamente à crise que vivemos, sobretudo porque muito do que se tem proposto como uma solução para a crise já é, há muito tempo, uma realidade entre os designers.

Há muito que o design é um trabalho precário, que a ideia do trabalhador como empreendedor é incentivada, que as empresas se sustentam através de estágios, que os salários são desvalorizados até serem negativos, acabando o trabalhador a financiar a firma. A lista poderia continuar.

E como é evidente nada disto está a dar qualquer resultado que não seja pior design, feito em piores condições. Tornar o resto da sociedade tão precária como a grande maioria dos designers é, portanto, de uma estupidez sem limites.

Assim, nesta altura do ano pergunto-me como evitar que isso aconteça, quando olho para o trabalho de um aluno, e quando pondero sobre a maneira como olho. Pergunto-me qual será o design, quais as suas formas e  quais os seus métodos, que não possa ser feito em condições de precariedade, ou que pelo menos use essas condições de um modo estratégico, político, para as pôr em causa.

Tenho descoberto pistas no passado sobre o que poderá ser esse design e em particular na edição mais ou menos independente portuguesa. No modo como lidava com pouca disponibilidade, poucos recursos, censura, pobreza, e ainda assim conseguia vingar. Numa publicação baratucha da Contraponto de Luiz Pacheco, por exemplo, há, apesar de toda a poupança, uma dignidade gráfica, uma elegância comoventes, que é possível ver em certas publicações actuais, na Dot Dot Dot, na Circular, etc.

A sua precariedade via-se nos seus temas que oscilavam entre a literatura, a denúncia, a história, a sátira ou a poesia, por vezes a meio de um texto. Era uma obra fragmentada e contingente que me parece encontrar algum eco no cinema português actual, que é talvez a arte que tem respondido melhor à crise, tanto ao nível dos objectos como do discurso que tem conseguido produzir em defesa da cultura. A oscilação entre documentário e ficção, entre épico e realismo, nos filmes de Miguel Gomes ou de Pedro Costa é também uma recusa da obsessão hierárquica que vai afunilando cada vez mais a própria ideia de democracia.

Godard dizia que enquanto Israel tinha sempre a possibilidade dos grandes épicos do cinema (da ficção, em suma), os Palestinianos estão reduzidos ao documentário. Não lhes resta outro remédio que não registar uma realidade que não podem mudar. Assim, para Jacques Rancière uma comédia palestiniana é transgressiva porque se recusa a aceitar um género que lhe é imposto. No caso do cinema português, a recusa é a mesma.

Assim, no design actual, tenho apreciado objectos e práticas que recusem o pragmatismo e o expediente, que sejam o menos realistas possível. Numa altura em que todo o design vai resvalando para o secretariado, para a gestão e para o empreendorismo, aprecio o lirismo e a inconsequência. Gastar tempo a tornar uma coisa bonita, ofensiva ou triste, quando bastaria muito simplesmente cumprir o prazo.

O que é isso tudo, ao certo? Confesso que, tirando esta definição geral, não faço grande ideia. Não tenho muitos exemplos particulares (talvez os cartazes que apareceram pelo Porto a protestar contra o despejo da Escola da Fontinha sejam um).

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

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