The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sociedade a Vapor

Quando li pela primeira vez The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling, não fazia ideia que se tornaria numa tendência , numa moda, talvez mesmo um estilo de vida, a que se veio a chamar Steampunk. O livro propunha uma história paralela onde o computador não só tinha sido inventado na primeira metade do século XIX (o que realmente aconteceu) mas onde era usado em larga escala pela sociedade Victoriana, modificando-a completamente.

Ao longo do livro, reencontramos personagens históricas em papéis inesperados, Byron como Primeiro Ministro, John Keats não como poeta mas como artista multimédia, produzindo animações bitmap apresentadas em ecrãs públicos com pixeis rotativos de madeira montados em mecanismos de relojoaria.

O Steampunk era uma variação do Ciberpunk, uma inversão da ideia tradicional da ficção-científica enquanto futurologia. Eventualmente, daria origem a mais livros, alguns filmes, bandas desenhadas, etc. Com o tempo, seria também uma moda, uma subcultura que se vestia como se vivesse nessa tal época vitoriana digitalizada, onde a Era do Vapor se tornava também na Era do Computador.

Para quem conheça a história do computador, não é muito diferente do que aconteceu realmente, apenas mais rápido e excitante. Talvez o interesse do Steampunk venha de a nossa ser uma cultura da novidade, e que o computador se tenha tornado naquele objecto que um segundo depois de comprado se começa a degradar rapidamente em direcção à obsolescência. Imaginar o passado como uma coisa excitante tem um certo poder transgressivo numa sociedade assim, que idolatra a inovação por nenhuma outra razão que não seja a novidade. Mesmo a história já só é recuperada se a sua interpretação for suficientemente nova, estranha ou até ofensiva.

Mas porque falo eu do Steampunk? Porque se Portugal regressa rapidamente ao passado a cada nova medida de austeridade, voltando a ser o país da emigração, da enxada ou da tasca, revelando o conservadorismo  retrógrado que é a base da doutrina neoliberal, esse regresso curiosamente assenta no fecho das linhas de caminho de ferro portuguesas. Numa época inerentemente conservadora como a nossa o passado, sobretudo quando é idealizado, é reconfortante. Os comboios a vapor são talvez o melhor símbolo disso, mecanismos negros de relojoaria que deixam atrás de si uma nuvem.

Uma possível aplicação do nosso atraso seria exibi-lo a turistas como se fosse nostalgia, mas nem isso é já possível. Voltamos ao passado, mas o regresso é mascarado com logótipos reluzentes e linguagem de gestão. Enquanto o nosso modo de vida aponta para o passado, a maneira como falámos dela aponta para o futuro – o oposto da filosofia Steampunk, onde a vida aponta para o futuro, mas a linguagem e a estética é a do passado.

Se para Fernando Pessoa, o provinciano era aquele que, tendo consciência e entusiasmo pelo progresso, não tomava parte activa dele,  a nossa sociedade vai ficando cada vez mais provinciana, incapaz de um progresso que não se limite a reinventar novas maneiras de convencer que se está, contra todas as evidências, a progredir.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Prontuário da Crise, , , ,

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