The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chris Marker 2021-2012

Numa das primeiras vezes que vi La Jetée, foi numa cópia pirata, em CD, o que já data de algum modo a ocasião. Já não uso CDs, nem sequer para música.

Vejo, leio e ouço quase tudo no meu computador. Já só vou ao cinema  quando estou disposto a ver não apenas o filme, mas também a própria sala de cinema, as silhuetas dos outros espectadores, o ruído que fazem mesmo quando se esforçam para estar em silêncio.

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Mal Entendido?

Pelos vistos, a exposição de Joana Vasconcelos em Versalhes custou 2,5 milhões de euros, divididos entre mecenas privados e apoios públicos, o artigo no Expresso não permite avaliar quem paga quanto, mas garante que o Turismo Portugal pagou pelo menos 150 mil euros. A quantia é quase um quarto da totalidade do que foi pago em apoios pontuais às artes em 2010 (800 mil). Em todo o caso, a totalidade do que se gastou na exposição é mais de três vezes isso.

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Animais Iguais, Equidade Equivalente

Segundo o Expresso, os custos da austeridade continuarão a abater-se preferencialmente sobre a função pública:

“Equidade não significa ser igual”, afirmou ao Expresso um membro do Governo, insistindo na tecla das vantagens que os trabalhadores do público já têm sobre todos os outros – no que toca à média salarial, à segurança no emprego e ao sistema de saúde. “Vamos continuar a tratar de forma diferente o que é diferente, e a equidade é isso mesmo”, acrescenta a mesma fonte.

Será que houve algum governo que tivesse esmiuçado mais o conceito de igualdade do que este? Leia o resto deste artigo »

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O Antipopulismo é o novo Populismo

A descrença neste governo já é tanta que começam a dar pena os esforços de quem ainda o tenta levar a sério.

Esta semana, por exemplo, Passos sai-se com a bojarda do “que se lixem as eleições”, cuja interpretação mais óbvia é que as suas políticas não são populistas, que está a sacrificar as hipóteses de reeleição em nome dos interesses do País, que ignorando os desejos imediatos da grande maioria da população, Portugal terá um futuro sustentável.

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Pobreza Gourmet

Uma tendência para a qual vou tendo cada vez menos paciência: versões “design”, “urbanas” e “gourmet” de alimentos, objectos ou modelos de negócio, sobretudo quando se articulam entre si numa espécie de gramática pretensiosa: “Água-pé gourmet” servida em “malgas design” numa “tasca urbana”.

É a melhor representação da austeridade enquanto estética, uma celebração da pobreza e dos seus valores concebida por e para gente que nunca foi pobre e que muito claramente despreza a pobreza, que confunde passar fome com perder calorias, perder o emprego com uma oportunidade, voltar à aldeia com ir de férias.

 

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Longo Curso

Mais outro post, só para dizer que estou vivo. E não, ainda não estou de férias, nem sei se vou estar. Ando a rever e fechar os últimos capítulos  de um projecto de longo curso que comecei há pouco mais de um ano, e sobre o qual espero poder dizer mais em breve.

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No Estranho Mundo dos Juros Negativos

O que se diz aqui dos EUA podia ser dito da Alemanha. E muito devagarinho: que há gente disposta a pagar para emprestar dinheiro à Alemanha. Que por sua vez tem medo de se endividar (apesar de haver gente literalmente disposta a pagar-lhe  para se endividar). Se se endividasse mais, podia não ser tão austera e pagar mais salários. Aumentando os salários alemães, tornaria menos doloroso reduzir os custos dos salários portugueses 20 ou 30% face aos da Alemanha. Notem que nem se está a pedir que nos perdoem a dívida, apenas que gastem com eles próprios o dinheiro que muita gente lhes está a pagar para lhes emprestar.

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A Aldeia Nacional

Desde o “apagão” que a minha fonte de notícias são os jornais, consumidos de preferência no iPad. Só vejo telejornais nos ecrãs do ginásio ou no café, quase sempre sem som. Prefiro ler as notícias a ouvi-las ou vê-las. Menos histeria e mais reflexão, mais contexto, ou seja: mais informação. Quando venho a casa dos meus pais, a dose de Tv Cabo só me confirma a preferência.
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Comissariado & Crime

A ver na RTP Memória Alexandre Melo, Clara Ferreira Alves e – acho eu – Edson Athayde a falarem sobre crítica em 1997. Melo com um grande blazer enchumaçado e camisa abotoada até cima sem gravata. Tudo em tons saturados. Perguntam-lhe como se torna conhecido um artista. Fala de galeristas, de compradores, do mercado, de como o crítico nem tem assim tanta importância. Espero um pouco e nada. Voltam a falar do mercado e dos galeristas. Outra vez dos críticos. Mas nada de comissários. Não se falava disso em 97.
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Porque sim

Se há coisa que ainda me enerva no discurso sobre design é a insistência naquelas receitas que se fazem sem perceber bem porquê, sem pensar muito nelas: deve-se falar assim com certo cliente, deve-se tratar o texto assado, nunca mostrar mais de três soluções, deixar passar um dia antes de responder. Certezas avulsas, que é como quem diz superstições, mezinhas comportamentais, disponíveis na secção de auto-ajuda, perdão, de gestão, da Fnac. Às vezes, ainda se encontra alguma sensatez incrustada nesta nova sabedoria popular; o mais provável é que a região do nosso cérebro dedicada à apreciação de um bom provérbio ou de uma dose de chá da videira esteja a precisar de mimos antes de pôr o resto das regiões a dormir uma sesta por causa do calor. Compreende-se que os alunos, enquanto aprendem, precisem dessas certezas, mas se aprenderem realmente alguma coisa é que não há realmente certezas.

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“Finanças Sãs e suas Consequências”

(via Miguel Soares no facebook, originalmente daqui)

Um artigo e uma foto publicados aqui há quase um ano mas que ainda não perderam a actualidade. Sobretudo quando o governo se congratula do sucesso das exportações, o primeiro desde 1943:

Na foto de Mário Novais, um arranjo cenográfico imponente na exposição de Paris de 1937 a mostrar o equilíbrio das contas públicas conseguido por Salazar. O título do gráfico “Portugal País Equilibrado: Finanças Sãs e suas Consequências”, apoiado pela montagem fotográfica de soldados, marinheiros e de jovens a fazerem a saudação fascista, dá a entender que a obsessão pela saúde das finanças e aquela coisa da ditadura se calhar até estão ligadas. Ainda assim, bela solução em relevo quase abstracto para os gráficos que ladeiam a tabela central.

Como bónus: mais uma demonstração da desonestidade intelectual daquela coisa “do vivemos acima dos nossos meios”.

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Todas as Manifestações são Ridículas

Professor Marcelo: “Eu disse que iam ser manifestações ridículas e foram manifestações ridículas. Esse tipo de manifestação – com o devido respeito pelos manifestantes que têm todo o direito em democracia de se manifestarem – já aconteceram [no passado] em casos pontuais, específicos. As pessoas independentemente de não gostarem do Governo ou dos ministros não vão fazer manifestações daquelas [que] são votadas ao insucesso”.

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Redes Analógicas

Acho que ando a ler a biografia de Luiz Pacheco praticamente desde a semana em que foi lançada, avançando por ali adentro aos sacões, à medida da disponibilidade. Um capítulo, dez páginas, nada. A capa neste momento já é de um cinza quase militar e os cantos estão todos enrolados.

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Os Novos Banqueiros Anarquistas

Num dos números da revista Contemporânea, em 1922, Fernando Pessoa publicou O Banqueiro Anarquista, um conto cujo interesse residia no paradoxo que começava logo no título, casando a respeitabilidade conservadora da banca à irresponsabilidade destrutiva da anarquia, associada no texto às bombas e aos sindicatos.

A história tinha a forma de um diálogo entre o narrador e um anarquista tornado banqueiro, que garantia não se ter tornado banqueiro por ter esquecido os seus princípios anarquistas mas por os ter seguido até às últimas consequências. Se o objectivo da anarquia era a libertação das “ficções sociais”, ele tinha conseguido libertar-se a ele mesmo. Se os outros quisessem ou não seguir o seu exemplo, era com eles.

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“Não vou comentar mas…”

Só um apontamento rápido para comentar a reacção de Paulo Portas à decisão do Tribunal de Contas Constitucional. Curiosamente, Portas começa por dizer que não comenta, para de seguida a comentar. Depois diz: “Não será comigo que Portugal vai diabolizar a função pública”, para logo de seguida acrescentar: “Temos de saber e entender que, se o problema de Portugal é défice do Estado, não é justo pretender que o sector privado tem a mesma responsabilidade de ajudar” – o que equivale a culpar a função pública pela crise. Pergunto-me o que diria ele, se quisesse diabolizá-la. Leia o resto deste artigo »

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Abundância em Tempo de Crise

Ainda não estou de férias. As aulas terminaram e as avaliações também. Faltam ainda relatórios, mas já é possível dedicar mais atenção a outras coisas.

Neste momento, termino alguns projectos de longo curso, dos quais ainda não posso falar, o que significa passar boa parte do dia a escrever, aproveitando o balanço que sobra para actualizar o blog.

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“Fui neles formado, é a partir deles que ensino e continuarei a ensinar.”

No Público Ípsilon de hoje, lá para o fim, um artigo de opinião do historiador Diogo Ramada Curto sobre os problemas e as distorções que a moda do paper académico em inglês levanta. Chama-se “O Livro: Contra a Corrente?” e vale a pena ser lido (não sei se o link é só para assinantes). Já me queixei por aqui das mesmas coisas, usando outros argumentos.

Ramada Curto refere (e prefere) a centralidade do livro, da sua escrita e da sua leitura, à fragmentação do paper e da busca numa base de dados. Eu acrescentaria que para dar uma cadeira, especialmente mas não apenas se for teórica, não basta somar aulas, sobretudo se forem dadas por convidados, cortando e colando conteúdos sem lhes dar um tratamento de fundo. A cada cadeira deveria corresponder de facto um livro ou (pelo menos, pelo menos) a investigação que a ele leva. Neste momento, pela multiplicação das cadeiras e dos alunos, esse rigor torna-se praticamente impossível.

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Origens da Crise Portuguesa: Bibliografia Concisa

Para referência futura ficam aqui três programas de televisão mais um livro que, no seu conjunto, explicam bastante bem qual é o problema mais grave de Portugal. Leia o resto deste artigo »

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Relvas a Ministro, já!

Lamento, mas não vou à manifestação pela demissão de Relvas.

Não porque acredite que Relvas tenha qualquer condição para cumprir o seu cargo com dignidade, mas precisamente porque não tem. É que o Ministro não foi reduzido a uma anedota: foi aumentado a uma anedota. Rivaliza neste momento com o Bocage e o Evaristo no panteão nacional do riso. Deviam propô-lo já, preventivamente, a património imaterial da Unesco, antes que alguém dê cabo dele.

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O Toque do Poder

Há uns textos atrás, quando defendi que Joana Vasconcelos era a melhor opção possível para representar o nosso país e sobretudo o nosso governo, não estava com toda a certeza a fazer-lhe um elogio, nem ao governo que a escolheu.

Comentei na altura que o modo como foi escolhida, ignorando ostensivamente os interesses de uma classe, é um bom exemplo da metodologia favorita do executivo, que se dedica a ignorar, igualmente e com todo o brio, professores, médicos, etc.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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