Até agora, não disse nada sobre a escolha de Joana Vasconcelos para representar Portugal em Veneza sobretudo porque me parece previsível e até adequada. Não porque aprecie o trabalho, que me deixa tão indiferente quanto possível, mas porque acaba por representar bastante bem o nosso país neste momento e em particular o nosso Governo, que a escolheu.
Todo o poder político tende a monumentalizar a sua ideologia, aquilo em que realmente acredita. Assim, escolher uma artista que produz obras de grande escala, feitas por grandes equipas coordenadas pela vontade central de uma iluminada, é monumentalizar uma certa forma de gestão e de empreendedorismo enquanto arte, e do artista enquanto gestor de objectos ou eventos de grande escala. Não é muito diferente da contratação de Souto Moura ou de Cabrita Reis para as barragens do Douro. Nestes casos, a decisão final é privada, mas a mensagem é a mesma: uma grande empresa faz-se representar por artistas-empresários. Escolher Joana Vasconcelos é dar a entender que o Estado é também ele uma grande empresa.
Depois, o modo como acabou por se escolher a artista, directamente e sem consultar os interesses do mundo da arte, ignorando instituições e comissários, por exemplo, também diz muito sobre este Governo. Segundo consta, aconteceu precisamente o mesmo com a escolha do logótipo do Governo. Ao que parece, houve contactos do executivo com o CPD, mas no final acabou por se disparar numa direcção inesperada, escolhendo directamente uma firma. A ser verdade, é apenas mais um exemplo do modus operandi que se foi tornando habitual: faz-se uma ronda de negociação e de auscultação aos interesses da área onde se pretende intervir, dando a entender diálogo, para logo de seguida se desautorizar a própria ideia de discussão pública, anunciando uma decisão final que ignora esses interesses por completo. Portanto, a maneira como se escolheu Joana Vasconcelos é monumentalizar também uma certa maneira de tomar decisões em público, ignorando os interesses corporativos de uma certa classe (artistas, comissários, etc.), da mesma maneira que se ignora os interesses de professores, médicos, funcionários públicos, colocando vontades empresariais, individuais, acima deles.
E é claro que mesmo ao nível da forma, a obra de Vasconcelos é uma monumentalização do empreendedorismo enquanto estética. Construir obras de arte a partir de panelas não é muito distinto de vender conservas ou aguardentes gourmet. Agarra-se num certo produto, que até já foi indício de pobreza e torna-se aquilo num produto de luxo, exaltando a pobreza como uma espécie de desígnio nacional, e muito obviamente monumentalizando as políticas deste governo.
Update: rescaldo aqui.