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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Outros “Ismos” da Arte

Há uns tempos estava à espera do autocarro numa paragem do Porto, por volta das oito, calculo, porque estava a ficar escuro e a fila ia crescendo rapidamente. Vinte, trinta pessoas, umas a seguir às outras, junto ao passeio que era largo, algumas encostadas à parede. Estudantes de mochila e senhoras com sacos do Pingo Doce.

O autocarro chegou, sacodiu as portas e as pessoas começaram a entrar. Uma rapariga que tinha acabado de chegar com um grupo de amigos separa-se deles e entra à frente de toda a gente. Uma velhota chama-lhe a atenção. A rapariga diz-lhe que há lugar para toda a gente e senta-se. O autocarro vai-se enchendo, já não há lugares sentados. Os amigos da rapariga juntam-se-lhe. Outra velhota queixa-se da falta de educação e civismo da juventude. A rapariga, sentada atrás de mim, resmunga sobre o racismo das pessoas (é africana).

Ironicamente, um dos momentos-chave da luta contra o racismo aconteceu num autocarro, quando Rosa Parks em 1955 se recusou a ceder o seu lugar a um passageiro branco por ordem do motorista. Parks protestava contra um acto de segregação racial, a ideia que os lugares num autocarro, ou mesmo o direito de usar um transporte público, deviam depender da cor da pele.

No meu autocarro, não havia qualquer impedimento desse género. Tirando os lugares reservados a pessoas com problemas de saúde, grávidas ou transportando crianças de colo, o direito a qualquer lugar dependia apenas da ordem de chegada, representada graficamente pela fila. Ignorar essa fila era ignorar o princípio mais básico de civismo – que num espaço público toda a gente tem os mesmos direitos e deveres.

Não posso garantir com absoluta certeza que alguém tenha  feito algum comentário que pudesse ser interpretado como racista. Tanto quanto percebi, naquela ocasião não houve nenhum. Se isso é verdade, calculo que aquela rapariga continuará a atribuir à cor da sua pele as reacções alheias à sua falta de civismo, acusando quem se atrever a chamar-lhe a atenção de racismo.*

Lembrei-me da história enquanto consultava alguns shares de shares do texto que escrevi sobre a Joana Vasconcelos, e dei com um comentário a acusar-me de sexismo por ter criticado o facto dela fazer arte com panelas. Aparentemente, ao criticar as panelas, estaria a criticar a artista por ser mulher.

Foi isto que eu escrevi:

“E é claro que mesmo ao nível da forma, a obra de Vasconcelos é uma monumentalização do empreendedorismo enquanto estética. Construir obras de arte a partir de panelas não é muito distinto de vender conservas ou aguardentes gourmet. Agarra-se num certo produto, que até já foi indício de pobreza e torna-se aquilo num produto de luxo, exaltando a pobreza como uma espécie de desígnio nacional, e muito obviamente monumentalizando as políticas deste governo.”

É-me bastante penoso concordar com aqueles ministros da educação que defendem que é precisa mais prática de interpretação de textos em português na escola, mas vou tentar traduzir o excerto para uma linguagem mais simples: as pessoas (homens ou mulheres) usam panelas, certos empresários (homens ou mulheres) fabricam-nas e exportam-nas. Pessoalmente, e talvez isso venha da minha formação de designer, tenho a tendência a pensar nas panelas como produtos industriais, sobretudo quando são expostas. Olho para aquele sapato e só imagino um secretário de estado da inovação ou um ministro dos negócios estrangeiros a apontar para ele como exemplo da qualidade da nossa indústria funileira – ou coisa assim.

Resumindo: diverte-me um pouco que me acusem de sexismo por criticar o uso de panelas na arte. É que fica a sensação que criticar uma panela é a mesma coisa que criticar uma mulher, que há uma associação necessária entre as duas coisas. Eu não acho, mas vocês lá sabem.

Concluindo: depois de ler umas tantas vezes o meu texto, não descobri nada que pudesse ser interpretado como sexista,* excepto o facto de ter criticado o trabalho de uma mulher; não por ter sido feito por uma mulher, mas por representar bastante bem este nosso governo.**

Salvaguardando: tendo em conta o exemplo do autocarro, haverá alguns leitores que me irão acusar de racismo. A minha resposta antecipada é: façam scroll até ao começo da página e voltem a ler, desta vez com atenção.

––

*Se calhar foi aquela parte em que comparei a Joana Vasconcelos com o Cabrita Reis. Devem ter pensado que, pela comparação, eu é que a estava a acusar de sexismo.

** Tenho a certeza que um Governo de outra ideologia, escolheria outra mulher, com outro tipo de trabalho.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política

One Response

  1. Marco diz:

    Eu acrescentaria que, para provar que não foste sexista, poderias dizer o mesmo sobre o José Carlos Malato. Alguém que não sabes muito bem por onde andou, não sabes muito bem o que fez e que de repente aparece em tudo o que é representação de algo público.
    Igualmente trazido ao colo e levado da mesma forma, neste caso concreto, o que ele faz à frente da televisão continua a não ser muito diferente da Joana Vasconcelos com as panelas, garfos de plástico ou naprons: ambos trabalham com produto foleiro, dão-lhe uma roupagem de pseudo-intelectualidade e falam muito em portugal para o povinho aplaudir sem pensar.
    Se uma usa roupa esquesita e o outro lança comentários a roçar a brejeirice, é apenas uma questão de forma….

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