The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Toque do Poder

Há uns textos atrás, quando defendi que Joana Vasconcelos era a melhor opção possível para representar o nosso país e sobretudo o nosso governo, não estava com toda a certeza a fazer-lhe um elogio, nem ao governo que a escolheu.

Comentei na altura que o modo como foi escolhida, ignorando ostensivamente os interesses de uma classe, é um bom exemplo da metodologia favorita do executivo, que se dedica a ignorar, igualmente e com todo o brio, professores, médicos, etc.

Serviu isso de pretexto para que se dissesse, já nem sei onde, penso que no facebook, que eu estava a defender os interesses de classe, etc.

Ora, eu desconfio tanto de uma escolha directa de uma artista por parte de um secretário de Estado, da qual não se conhece o critério, como da escolha indirecta através do convite de um ou mais comissários, que por sua vez escolheriam os artistas.

Pode-se argumentar que a segunda opção assegura mais autonomia dos artistas em relação a possíveis pressões do Estado. No entanto, tem dois problemas.

O primeiro: se a escolha dos artistas não é directamente política, a escolha dos comissários ainda o é. E, como devia ser evidente, ainda podem ocorrer pressões no sentido de escolher este ou aquele artista – o que é bastante comum, mesmo quando se recorre a júris internacionais.

O segundo: ao fazer assentar a escolha numa estrita hierarquização, compartimentando as responsabilidades, evita-se a figura do artista heróico, individualista e empreendedor solitário e do autoritarismo igualmente empreendedor de quem o escolhe, mas constrói-se no seu lugar a ideia do artista ou comissário de carreira, que fez todas as coisas certas, na altura certa, na ordem correcta, que conhece as referências, que apresentou a papelada, picou modestamente o ponto, merecendo portanto a promoção. Resumindo: a arte como burocracia.

É claro que nenhuma das opções, a individualista ou a burocrática, tem qualquer interesse, e é sinal disso que se tenha comentado a escolha de Vasconcelos usando os dois modelos, tanto para a atacar como para a defender, descrevendo-a em qualquer dos casos como a artista fora do sistema ou como a artista que picou o ponto. Nem sequer se excluem: pode-se perfeitamente circular entre os dois.

Boa parte dos artistas e comissários de carreira ambicionam estas oportunidades de brilhar, e não há mal nenhum nisso. É para isso que afinam as suas qualidades. O fim último do artista treinado institucionalmente é representar o poder institucional.Representar um país num evento internacional é uma consagração evidente.

Infelizmente, implica coabitar com o poder político actual, que ninguém no seu perfeito juízo descreveria como boa companhia no que diz respeito à cultura. Nem sequer é um bom tema para a cultura – excepto como matéria prima para anedotas. Fazer uma cadeira à medida de Cavaco Silva, por exemplo, deve ser um exercício parecido com não pensar num urso polar durante um minuto. Ou simplesmente com não pensar de todo. Não vale a pena.

Uma arte tocada por esta gente não pode, pura e simplesmente, ser fixe. Se calhar a ideia de colocar um curador entre o artista e o poder político é útil apenas como barreira de protecção contra o mau gosto, mas não chega. Para se ter por aqui uma arte oficial decente, não há outro remédio senão arranjar políticos melhores. Com estes não se vai lá.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. […] aqui no blog as minhas razões para isso; façam uma pesquisa se as quiserem ler todas) mas também já disse porque desconfio da obrigação de passar por estes mecanismos de legitimação. A minha solução […]

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