The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Fui neles formado, é a partir deles que ensino e continuarei a ensinar.”

No Público Ípsilon de hoje, lá para o fim, um artigo de opinião do historiador Diogo Ramada Curto sobre os problemas e as distorções que a moda do paper académico em inglês levanta. Chama-se “O Livro: Contra a Corrente?” e vale a pena ser lido (não sei se o link é só para assinantes). Já me queixei por aqui das mesmas coisas, usando outros argumentos.

Ramada Curto refere (e prefere) a centralidade do livro, da sua escrita e da sua leitura, à fragmentação do paper e da busca numa base de dados. Eu acrescentaria que para dar uma cadeira, especialmente mas não apenas se for teórica, não basta somar aulas, sobretudo se forem dadas por convidados, cortando e colando conteúdos sem lhes dar um tratamento de fundo. A cada cadeira deveria corresponder de facto um livro ou (pelo menos, pelo menos) a investigação que a ele leva. Neste momento, pela multiplicação das cadeiras e dos alunos, esse rigor torna-se praticamente impossível.

Ensinando seis cadeiras por ano, sem tempos de pausa e se possível atascado em burocracia administrativa, como é possível escrever ou mesmo ler? Ainda se vai tolerando umas teses de doutoramento mais compridas, mas a regra é poupar no tempo e no tamanho. O título deste artigo é a declaração de fé que conclui o texto de Ramada Curto e que subscrevo.

Fica aqui o primeiro parágrafo para aguçar o apetite:

“As universidades, por pressão das instâncias que controlam fundos para a investigação e numa busca de internacionalização, estão a fixar novos critérios de avaliação. Trata-se de uma operação legítima e mais do que justificada. Porém, nas Humanidades e nas Ciências Sociais, já se confundiram alhos com bugalhos. Ou seja, importaram-se das ciências ditas exactas os critérios quantitativos de aferição das carreiras e já há quem diga, como se se tratasse de um dogma, que a publicação de artigos em revistas internacionais – de classe A, escritos em inglês, com referee e disponibilizados em qualquer ‘plataforma’ on-line – constitui o grande objectivo da vida de investigadores, novos ou velhos. Porquê? Por ser essa a única forma de alcançar a referida internacionalização. E, também, por ser a via em exclusivo para chegar à excelência de que todos falam, mas que poucos sabem dizer o que é – sendo ainda mais raros os que se mostram capazes de denunciá-la (como fez, e bem, António Guerreiro em artigo publicado no Expresso a 3 de Março deste ano). Mais. Ao que tudo indica, tratar-se-á de um processo imparável, ou seja, sem alternativa.”

Errata: por lapso, atribui o artigo a Vitorino Magalhães Rodrigo, quando o seu autor é Diogo Ramada Curto. Ficam aqui as minhas desculpas e a correcção.

Filed under: Burocracia, Crítica, Cultura, Ensino

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: