The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Novos Banqueiros Anarquistas

Num dos números da revista Contemporânea, em 1922, Fernando Pessoa publicou O Banqueiro Anarquista, um conto cujo interesse residia no paradoxo que começava logo no título, casando a respeitabilidade conservadora da banca à irresponsabilidade destrutiva da anarquia, associada no texto às bombas e aos sindicatos.

A história tinha a forma de um diálogo entre o narrador e um anarquista tornado banqueiro, que garantia não se ter tornado banqueiro por ter esquecido os seus princípios anarquistas mas por os ter seguido até às últimas consequências. Se o objectivo da anarquia era a libertação das “ficções sociais”, ele tinha conseguido libertar-se a ele mesmo. Se os outros quisessem ou não seguir o seu exemplo, era com eles.

Na altura em que foi escrito, chocava pelo absurdo. Lendo-o agora, em especial depois de passar os olhos pelos jornais do dia, sejam eles o Público ou o New York Times, concluímos facilmente que já não há paradoxo nenhum. Se a anarquia é literalmente uma doutrina que defende o governo com o mínimo de Governo possível, o neoliberalismo pede a mesmíssima coisa: menos Estado, se possível tão pequeno que possa ser afogado numa banheira.*

Não se trata só de uma questão administrativa mas também ética. Dentro desta doutrina, o civismo, por exemplo, é também visto como uma imposição do Estado, inculcada através do ensino público, e que bloqueia a possibilidade de relações livres entre os indivíduos.

Essencialmente, trata-se de diminuir ao máximo o peso do Estado, reduzindo ao mínimo a sua capacidade reguladora, com o pretexto que esta impede a realização individual. Os limites da regulação do Estado são definidos pela lei, que determina as situações em que o governo pode intervir; o resto das situações são da responsabilidade de cada um, da sua ética. Assim, quando ouvimos alguém, sobretudo um político, justificar uma acção de ética duvidosa, dizendo “Não é ilícito” ou “Não é ilegal”, estamos a ter uma amostra do que será um futuro com uma educação cívica inexistente e um governo reduzido ao mínimo possível.

Pode-se argumentar que há leis a mais, e eu concordo, mas para sustentar uma sociedade verdadeiramente livre, não basta cortá-las. São também precisas instituições que assegurem o debate e o ensino da ética e, tão importante como isso, assegurem a justiça e a igualdade.

Eliminar o governo num sítio como Portugal significa, entre outras coisas, regressar a unidades mais primárias como a família, o que no caso das famílias com mais influência é um regresso à aristocracia, à ideia que o sangue determina a carreira de cada um; no caso das famílias mais pobres significa o isolamento e a subsistência, o fim da mobilidade social. Sem uma ética republicana que garanta a igualdade, ganhará quem tiver à partida dinheiro ou ligações.

É uma agenda profundamente conservadora que assenta no enfraquecimento de um Estado que, mal ou bem, assegurava um ensino público, saúde pública, justiça pública, etc. A consequência do seu sucesso será ouvir muito mais vezes alguém dizer que “Não é ilícito”, mas também uma menor tolerância às iniciativas que estimulem uma mobilidade social que saia fora da família, do mercado ou de certos interesses partidários.

Haverá menos tolerância para formas de família que ponham em causa publicamente a transmissão do poder através do sangue, desde o controle da natalidade até ao casamento homossexual,** passando pela interrupção voluntária da gravidez, que serão tolerados desde que praticados em silêncio.

Não há muito paradoxo hoje em dia na ideia de um banqueiro anarquista e nada o confirma melhor do que as acções daqueles a quem a sociedade ainda vai chamando anarquistas: abrem escolas, bibliotecas e centros cívicos que o governo fechou. Chamaram a si a responsabilidade de manterem viva a ética republicana e democrática, assente no serviço público. Curiosamente, a punição que recebem quando são apanhados tem sido o serviço comunitário, o que implica uma marginalização tácita do serviço público, visto como crime e como castigo.

Contra o Banqueiro Anarquista ergue-se o Funcionário Público Clandestino.

––

*Palavras de Grover Norquist, lobbyista americano que defende o corte dos imposto como modo de diminuir o tamanho do Estado: : “I’m not in favor of abolishing the government. I just want to shrink it down to the size where we can drown it in the bathtub.”

** Como demonstra o caso Saraiva, neste contexto conservador a homossexualidade só é transgressiva se for “política”.

Anúncios

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Economia, Náo é Ilegal, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. […] esquerda mais radical ainda não percebeu que o neoliberalismo é uma espécie de anarquia gourmet. Desvalorizar e deslegitimar o Estado e as suas instituições, a começar pelo voto, só o […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: