The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chris Marker 2021-2012

Numa das primeiras vezes que vi La Jetée, foi numa cópia pirata, em CD, o que já data de algum modo a ocasião. Já não uso CDs, nem sequer para música.

Vejo, leio e ouço quase tudo no meu computador. Já só vou ao cinema  quando estou disposto a ver não apenas o filme, mas também a própria sala de cinema, as silhuetas dos outros espectadores, o ruído que fazem mesmo quando se esforçam para estar em silêncio.

O mesmo com os livros, que já só leio fora do ecrã quando o seu aspecto físico tem alguma importância ou quando não há uma versão digital disponível.

Ao ver o filme de Marker nessa ocasião, reparei que o formato primitivo de compressão lidava mal com os longos planos estáticos, na verdade fotografias, com as quais o filme era construído. As imagens, sobretudo os seus contornos, tremiam¹ e enrolavam-se, distorcendo-se como sopradas por um vento quente.

Os formatos com que arquivamos são uma burocracia subtil, automática, que não guarda apenas as coisas, mas nos diz também o que podemos guardar, aquilo que é considerado um filme.

Um filme já só dificilmente é uma sequência de fotografias, uma “aplicação inovadora da fotografia” como se dizia nos seus primeiros tempos. Já não se trata de apanhar luz reflectida em objectos, mas de a ir gerando a partir de algoritmos complicados.

Num dos livros de William Gibson, Pattern Recognition, procurava-se uma misteriosa Filmagem, viciante, que ia sendo publicada anonimamente, misteriosamente, na internet. Imagens a preto e branco, de um casal, correndo numa paisagem que não era possível localizar ou datar, uma descrição que me lembrava sempre La Jetée.

É possível ver muitos dos filmes de Marker no Youtube, encontrar os seus frames isolados no tumblr, maneiras de consumir imagens que o livro de Gibson, de 2003, antecipava por muito pouco tempo. Às vezes com uma legenda, outras apenas imagens, sem mais nada, mas continuando a ser profundamente evocativas, como se tivessem sido feitas para que a sua sobrevivência em todos estes meios novos, a todas as suas distorções, fosse ela mesma premeditada.

Nota sobre o título: É um erro, claro, resultado da pressa. Marker não nasceu quase uma década depois de ter morrido. É possível corrigir a data aqui no WordPress, mas no Facebook já tentei tudo e o erro mantém-se. É um castigo e uma ilustração adequados a um texto que gaba as virtudes das distorções próprias dos arquivos em formato digital. Também acaba por ser um bom título para a vida de um fotógrafo, em negativo, portanto, cujo filme mais conhecido é a história de um homem que não morreu antes de ter nascido, mas morreu diante de si mesmo, antes do tempo. Fica o erro, portanto. A data certa é 1921-2012.

1. Só mais de dois anos depois de escrever este texto é que soube que Marker se tinha perguntado, em Le Fond de l’air est rouge, “Porque começavam as imagens às vezes a tremer?”

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Filed under: Computador, Crítica, Cultura, Não é bem design, mas..., nostalgia

One Response

  1. some diz:

    Longue vie à Chris Marker!

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